Perversões

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Fantástico

Frequentemente desejo o Fantástico. Conduzir por uma estrada deserta durante a noite e avistar algo inexplicável. Luzes que pelo céu que me seguem; uma mulher na berma da estrada assustadoramente sensual, surgindo do nada, tal como uma assombração…

Sei que deveria andar neste mundo com uma bigorna pesada presa ao calcanhar. Constantemente divago pelas alturas da fantasia. Por vezes, fico preso em memórias ou receios. Inconscientemente construo um trajeto que acerta mesmo na muche do indesejável e penso: “Já fizeste merda outra vez” e pequenas fagulhas de metal incandescente jorram dos meus olhos.


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Final Feliz

É necessário garganta e estômago para engolir os efeitos colaterais de viver. Felizmente utilizamos medidas que definem e justificam a nossa existência, tornando-a mais suportável. É expectável que os dias tenham vinte e quatro horas, que as semanas sejam conjuntos de dias, e assim progressivamente, até termos uma Vida – uns conjuntos de anos.

Mas não apenas de tempo é formada esta existência. Há outras coisas que são igualmente importantes. Por exemplo, a qualidade do tempo passado na Vida. O Saber reunido dentro de nós, o Amor que cultivámos, o Sexo que nos alegra o corpo e a mente.

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Borla

Já estava a ficar bêbado. Aqui bebem muita cerveja e parece que a fonte nunca seca. Não fiquei totalmente perdido na bebedeira, mas mijei umas quantas vezes. Senti aquele solavanco de vai não vai entre a sobriedade e a perda de racionalização.

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Livro usado

Comprei mais um livro e cobicei uma mulher casada. Pecados mortais que apenas desgastam. Os livros, esses pequenos animais domésticos, são como jovens putinhas ou curiosas novidades. Após consumidos até à última frase, para ali ficam esquecidos. Reler um livro é raro, no entanto, volta e meia lá o temos novamente ao colo.

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Vizinha Joaquina

Cresci no centro da antiga cidade. Rodeado por muralhas e ruas calcetadas em estilo romano. Não com a geometria perfeita da calçada portuguesa mas sim a organização caótica de rochas lisas, plantadas no chão, ocupando o seu espaço sem pretenderem pertencer ao Todo.

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Triângulo

Vértice 1 As ruas são planas e limpas. O frio não se sente como se sentia ontem. Hoje, nesta tarde de Setembro, carrego a bússola que me ajudará a chegar sua casa. Uma medusa de cabelos loiros, semelhante a pequenas serpentes albinas com olhar atrevido. Perco-me numa das ruas sem saída, questiono um jovem cavaleiro que por ali encontro onde é a morada que esta medusa me forneceu.

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Mendigo de olhos verdes

Os seus olhos verdes iluminavam o bairro. Os dias nas ruas eram bastante solitários e a cama construída com velhos cartões e alguns lençóis que foi recolhendo de contentores de lixo era ingrata e penosa. As horas eram longas durante a noite, principalmente no inverno, quando o frio teimava em fazer-lhe companhia.

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Sobre a consciência das coisas

Existem duas luas, uma com tons vermelhos - lama que cobre o astro num eterno sangrar - e a outra, a mais pequena, branca e virginal como uma pérola celeste. Todos somos feitos da mesma matéria merdosa que compõe o universo. A vida consiste em viajar por ele à velocidade do nosso planeta - que vertigem de tempo e espaço - e sofregamente aguardar pelo fim do processo da célula que nasce e morre.

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Anónimos

Sentados em círculo aguardávamos. Em silêncio, ou em conversas murmuradas, tentávamos esconder a vergonha e a insegurança que nos levou até ali. Quatro mulheres, sentadas e intercaladas por quatro homens. Do meu lado esquerdo uma loira vistosa. Quarenta anos vividos. Aliás, todos nós éramos vividos e penitentes no mundo da perversão e promiscuidade caso contrário, não estaríamos reunidos como quem aguarda julgamento.

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Nesta idade

É nesta idade que as cores perdem a vivacidade e ganham um sabor e texturas nunca antes sentidas. É nesta idade que as perdas são sentidas como oportunidades de mudança, seja esta desejada ou não. Nesta idade há mais perversão e o Amor é uma ideia tão linda (ou um mafarrico pequenino e difícil de apanhar). Ontem, quando ainda estava um calor de derreter rocha, conduzia perto do Cais do Sodré em frente ao Mercado da Ribeira. Abrandei para uma menina atravessar a estrada.

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