Perversões
Descia a avenida Fontes Pereira de Melo, em Lisboa, e encontrei um meteorito sentado num banco, a escrever poemas. Foi estranho à primeira vista. Não que um meteorito não possa escrever poemas; eu é que nunca tinha visto tal coisa.
Bebia uma caneca loira e reparei na mesa de madeira da esplanada. A cadeira assemelhava-se a um instrumento de tortura de um consultório médico antigo e era ocupada por uma miúda ruiva,
Eu sei o que tenho em Évora.
Tenho a mármore branca da da fonte que me recorda a pele suave dos amores de adolescência. As paixões platónicas em cada arcada.
No passado domingo, na Casa do Alentejo, o baile não era temático mas, por falta de motivo melhor, as velhotas embonecaram-se e algumas levaram as netinhas como companhia. Cidália era uma conhecida de António, e a neta, uma boneca de 27 anos acompanhou-a. Quando entrou no salão de baile com a avó, já António bebericava um tinto e quase se engasgou. Aquele golo de vinho não foi de beber, foi de comer, como se algo lhe entrasse pela guela sem ter sido mastigado.
Foi semelhante à primeira vez que assisti ao nascer do dia. Na inocência de quem pouco viveu, tudo parece bastante brilhante, e os sons são tão nítidos e puros que quase que podemos jurar que o Paraíso é isto. Recordo-me perfeitamente.
Primeiro um ombro, uma alça que cai e o seio desnudo exibe-se. Muito tímido, mas seguro da sua beleza. Os meus olhos apenas brilhavam esperançosos. Aquela esperança que as crianças cultivam até que a vida lhe dá um pontapé bem assente na Alma ou na Honra.
Recordo-me perfeitamente.
Havia um aguaceiro no seu olhar e um sabor acre nos lábios, como se tivesse feito uma direta e o fígado gritasse por auxílio; as despedidas costumam ter este tipo de efeitos secundários. Nunca havíamos dado as mãos, mas naquela tarde, soubemos que seria o primeiro entrelaçar de dedos. A sombra das nuvens invadia a cidade como uma aguarela e havia o som de folhas de árvores no vento.
Pedi-lhe para contar a melhor história que tivesse vivido, Alexandre sorriu e sentou-se à minha frente.
- Quero que me contes todos os detalhes, quero escrever essa história.
- Oh filho, tenho tantas, não terás cabeça para as decorar, nem dedos para as escrever - disse-me, troçando da minha curiosidade.
A vida vai passando a cada final de semana na rua de Sant’ana; perto da Ginjinha, há quem venda feijões, sapatos em segunda mão (segundo pé), lâminas de barbear e outros bens que tais.
Num restaurante tradicional sentei-me, pedi um bitoque com ovo estrelado. Ainda sentia a ressaca da noite anterior. Havia estado com Ela na Mouraria até perto das 4 da manhã. Bebemos cerveja, vinho e o resto nem me lembro. Havia um daqueles artistas que tocam teclado, cantam e fazem o pino. As vidas manifestavam-se. As pessoas sorriam, abraçavam-se e dançavam. Também nós o fizemos. A ultima imperial nem a pagámos. Já se queimavam os últimos cartuchos e a banca das jolas já se preparava para fechar.