Perversões

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O Homem espacial

Para ele o universo cabia numa casca de noz. Condensado em lagrimas de estrelas e cometas, assim o tempo fluía. Tempo... um luxo do qual ele não poderia usufruir pois a sentença - mortal - havia chegado quando ainda era um jovem cheio de força na verga. Anos, horas e minutos estavam contados. Não em pequenos grãos de areia mas sim em estrelas cadentes que marcavam o seu destino, um breve instante no cosmos intemporal. O juiz - aquele que dita a Vida - havia sido peremptório, não havia matemática capaz de o salvar.

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Na eventualidade de perder-Me

É ingrato pensar que na eventualidade de perder-Me, dificilmente terei a consciência de tal desgraça. Essa possibilidade assusta-me, ao ponto de duvidar da vida. Não da vida como existência, mas sim da Vida, aquela que tem luzes brilhantes e pequenas faíscas nos olhos. Na eventualidade de perder-Me, espalharei pedaços de pão pelo caminho, na esperança de que a Fome seja fraca e não o consuma. Triste desejo, no mundo onde ela arreganha os dentes a gotas de sangue e pequenos restos de pele morta.

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Outono

Quando o avião partiu, todos os que observávamos a lenta marcha dos nossos amores, até à ave de metal, voltámos costas com um sentimento de desolação. Inevitavelmente assim aconteceu. Mesmo antes de ela partir já os pássaros nómadas haviam abandonado os ninhos; as árvores despiram-se das velhas folhas castanhas e o rio secou. As águias, haviam arrancado o bico e as unhas e aguardavam, em sofrimento, o rejuvenescimento.

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Bicho feio (tributo a Kafka)

- Perante as provas apresentadas, não tenho outra solução senão condená-lo ao cárcere... eterno - e as 3 pancadas soaram na sala onde o suspiro do condenado não foi sentido. Foi assim que começou.

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A bem suada

As boas histórias acontecem de noite. Pois bem, esta, nem por isso... talvez nem seja uma boa história. Passa-se numa tarde de verão bastante quente, daquelas que são envoltas em ondas de calor, vindas dos desertos longínquos de África.

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Voaram juntos

Quando já passava das dezassete, Artur entrou no balneário. Estava vazio e fresco, como se o sol não tivesse visitado aquela sala durante todo o dia. Ele estava cansado. Havia passado longas horas lá em cima, de asas bem abertas, a planar pelos céus. Nesse momento, o mundo torna-se pequeno e a curvatura do planeta é a fronteira que o recorda da existência de limites.

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Vida desperdiçada

Um sorriso que apenas se esboça nos lábios, pois os olhos, mantêm-se inalterados na inexistência da felicidade apregoada. É este o seu semblante. Começa pela manhã, com pequenos rituais, cujo efeito esperado é a harmonia com os astros. O sumo de limão com um pouco de água é bebido lentamente seguido dos dez minutos de meditação. É uma pesada penitência, a de de manter a imagem de humano, cuidadosamente trabalhada no espelho. A pele da face que envelhece e desenvolve pequenas rugas, tal como terra lavrada.

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O Inspector

Nos dias em que fica de prevenção as cigarrilhas são sempre poucas. A personalidade adaptou-se ao ambiente, tal como areia fina, que procura a sua zona de conforto numa garrafa de vidro. O Inspector é um tipo frio e perfeccionista; obcecado pelas regras, fiel crente da acção reacção, detesta o acaso. Consegue perceber, pelo tom do vento, qual a direcção em que o crime se desloca. Aos quarenta e cinco anos, nunca se entregou, na totalidade, a uma mulher. Teve amores intensos, dos que abanam alicerces e fazem vizinhos e transeuntes invejarem a luz que emanam, no entanto, nunca disse um “Eu amo-te”.

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Beija flor

Era um vez um homem. Um homem muito Homem. Vivia sozinho e sem plantas. Nem um alho germinado, pois apodreciam antes de gerar o talo branco e verde - o mesmo acontecia às cebolas. Não era infeliz, apenas Era.

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Revolução
Podcast

Na noite em que a revolução estava marcada a minha ânsia de liberdade era diminuta. Por vezes o sentimento de clausura é desejado, tal como uma ave, que se cobre com as asas e adormece num casulo de penas. Indiferente ao que sinto saiu de casa.

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