Perversões
Tenho fome de ti, diz Soraia quando sai do banho e Jave deitado nu na cama, aguarda-a lendo Sartre. Soraia tem cabelo longo encaracolado que herdou da avó cabo verdiana. Os olhos verdes esmeralda brilham à medida que o pénis dele cresce imponente, um menir pré histórico que é a prova viva de que o sexo é a forma de comunicação mais pura entre géneros.
Edgar senta-se à secretária onde os manuscritos se acumulam em montes de páginas soltas e desordenadas. Os poemas escorrem da sua alma como que por desespero, procurando o conforto nas folhas brancas, ficando marcados a tinta negra. Todos os dias tem algo para registar, por vezes apenas uma pequena experiência que não quer esquecer:
Reunimo-nos para jantar em minha casa, estava frio e por isso coloquei alguma lenha na salamandra. Os convidados chegaram à hora marcada e a mesa, preparada ao pormenor, já os aguardava ansiosamente. As senhoras, com longos casacos de inverno cobrindo vestidos de gala pretos, vermelhos, malhados, traziam nos olhos o brilho de quem contempla diamantes.
Perdido em corpos de mulheres, procurando conforto nos seios, nas ancas, nas vulvas, nos lábios e línguas, percebi que a cova na qual me iria enterrar vivo estava a tornar-se mais funda e mais escura, um fosso infinito de ausência. Como eu devem existir muitos outros, homens e mulheres, numa luta diária pela satisfação que, insaciável e devastadora, arrefece o sangue, e na companhia de outros corpos, por breves momentos, aquece a alma.
Um dia, João Peixe vadeava pelo Chiado quando decidiu beber um café no quiosque ali na praça Camões. Sentou-se na esplanada, o sol estava quente e queimava a pele, o café queimou a língua. Vítor estava algures no norte visitando familiares e Luísa, desaparecida há mais de uma semana, provavelmente ter-se-ia enamorado por mais um homem desinteressante com quem perdia tempo, deixando J.P. ao abandono e suscetível ao acaso dos encontros e desencontros.
Os meus vizinhos chineses todos os dias saem de casa às sete da manhã e voltam às dezanove em ponto. Têm uma filha com cerca de vinte anos que fala perfeitamente português e o seu comportamento é bastante europeu, roçando o latino. Estuda numa universidade pois já a vi trajada, carregando uma pequena pasta que se assemelha a um testamento com capa de couro.
Num acaso dos Deuses esbarrámos um no outro e na semana seguinte dormimos juntos. As vozes modificam-se quando fazemos amor, o respirar torna-se sincronizado e os lábios tocam-se na mesma frequência que a penetração. O pulsar dos sexos é a forma que os corpos têm para expressar desejo e a alma, mergulhada em delírio, apaixona-se e perde um pouco de si, passando então a fazer parte do outro. A fusão de almas é o mistério que ninguém nos revela e que pode ser penoso se gerido de forma indevida.
Quando era criança, recordo ouvir os meus avós comentarem que determinada mulher, era agora amiga de determinado homem. "Amigaram-se", diziam. Essa expressão ficou-me na memória e uma enorme curiosidade em perceber a fundo o que realmente significa. Pelas minhas investigações um homem pode ser casado e amigar-se com a vizinha ou até com a cunhada.
Tinha passado a noite numa daquelas associações centenárias, a beber bagaços e a conversar sobre tretas, com os velhotes do bairro. O senhor Manel contou-nos a sua história de quando arranjou uma puta de dezanove anos, tendo ele setenta e oito, que lhe fez trinta por uma linha. Eu sabia que eram tudo aldrabices mas a ideia de tal possibilidade era hilariante e o bagaço não parava de surgir na mesa. Foi uma noite perfeita para um dia de ressaca.
Em Portugal não existe pena de morte, mas por vezes imagino como seria essa realidade. Abrir o jornal e um cabeçalho enorme nas páginas centrais: “O desejo do condenado”. Seria um artigo sobre o seu último desejo, antes da pena capital ser aplicada.