Perversões
As boas histórias acontecem de noite. Pois bem, esta, nem por isso... talvez nem seja uma boa história. Passa-se numa tarde de verão bastante quente, daquelas que são envoltas em ondas de calor, vindas dos desertos longínquos de África.
Quando já passava das dezassete, Artur entrou no balneário. Estava vazio e fresco, como se o sol não tivesse visitado aquela sala durante todo o dia. Ele estava cansado. Havia passado longas horas lá em cima, de asas bem abertas, a planar pelos céus. Nesse momento, o mundo torna-se pequeno e a curvatura do planeta é a fronteira que o recorda da existência de limites.
Um sorriso que apenas se esboça nos lábios, pois os olhos, mantêm-se inalterados na inexistência da felicidade apregoada. É este o seu semblante. Começa pela manhã, com pequenos rituais, cujo efeito esperado é a harmonia com os astros. O sumo de limão com um pouco de água é bebido lentamente seguido dos dez minutos de meditação. É uma pesada penitência, a de de manter a imagem de humano, cuidadosamente trabalhada no espelho. A pele da face que envelhece e desenvolve pequenas rugas, tal como terra lavrada.
Nos dias em que fica de prevenção as cigarrilhas são sempre poucas. A personalidade adaptou-se ao ambiente, tal como areia fina, que procura a sua zona de conforto numa garrafa de vidro. O Inspector é um tipo frio e perfeccionista; obcecado pelas regras, fiel crente da acção reacção, detesta o acaso. Consegue perceber, pelo tom do vento, qual a direcção em que o crime se desloca. Aos quarenta e cinco anos, nunca se entregou, na totalidade, a uma mulher. Teve amores intensos, dos que abanam alicerces e fazem vizinhos e transeuntes invejarem a luz que emanam, no entanto, nunca disse um “Eu amo-te”.
Era um vez um homem. Um homem muito Homem. Vivia sozinho e sem plantas. Nem um alho germinado, pois apodreciam antes de gerar o talo branco e verde - o mesmo acontecia às cebolas. Não era infeliz, apenas Era.
Violeta, tinha uns lindos olhos, maquilhados em tons lilás. Os seus seios, jovens e firmes, delicados e encantadores, despertavam nos homens um desejo de proteção. Diria mesmo que, no fundo do inconsciente, as mazelas freudianas com as quais todos nascemos e vivemos, sobressaiam à flor da pele. A sua - a pele - era de brancura imaculada, assemelhava-se a lençóis virginalmente brancos e perfumados.
Bebemos e dançámos até às três da manhã. Não estávamos bêbados.
Quando o silêncio ocupou o lugar da música, pedi-lhe um cigarro e um beijo. Um beijo no canto da boca como que numa provocação acidental. Sorrimos. Dissemos adeus.
Não fico horas em frente destas folhas em branco. Arranco as palavras como um penso rápido. A ferida não sarou, mas isso não impede que esteja disposta a suportar a dor. Rápida e voraz. Nervos excitados e pele dorida. Essa é a forma como vivo. A vida deve ser assim. Rápida e com pequenas pontadas de dores que nos dilatam as pupilas. Há quem diga até que é uma droga, uma droga viciante mas não sustentável. Não pensaremos no seu fim, nem no limite de tempo que dispomos, até que a trip passe.
Terminei a tua história.
Para dizer a verdade nem foi muito difícil. Recordas-te quando voltámos do Porto e tu estavas cansada. Foste para a cama cedo. Nessa noite, sentei-me ao computador e comecei a escrever. Bebi vinho. Fiz várias pausas entre parágrafos e espreitei-te, deitada, dormindo pacificamente. Com o olhar, percorri as tuas pernas descobertas e as tuas cuecas, brancas e justas à pele. Por vezes respiravas fundo. Mexias-te ligeiramente ou coçavas o rabo e eu voltava a sentar-me ao computador. Fiz quase uma directa mas terminei.