O Inspector

Nos dias em que fica de prevenção as cigarrilhas são sempre poucas. A personalidade adaptou-se ao ambiente, tal como areia fina, que procura a sua zona de conforto numa garrafa de vidro. O Inspector é um tipo frio e perfeccionista; obcecado pelas regras, fiel crente da acção reacção, detesta o acaso. Consegue perceber, pelo tom do vento, qual a direcção em que o crime se desloca. Aos quarenta e cinco anos, nunca se entregou, na totalidade, a uma mulher. Teve amores intensos, dos que abanam alicerces e fazem vizinhos e transeuntes invejarem a luz que emanam, no entanto, nunca disse um “Eu amo-te”.
O escritório, onde passa a maior parte do seu tempo, é caoticamente arrumado. Dossiers com casos prescritos, por prescrever, casos simples e burocráticos e um ou outro que lhe tira o sono, pois arrastam-se por eternidades labirínticas.
Todas as manhãs, quando chega ao gabinete, após poisar o chapéu e beber o café, senta-se na secretária. Metodicamente, relê o caso que tem em mãos, consulta a agenda, e realiza toda uma panóplia de tarefas redundantes e desnecessárias.
Um desses casos é o de Sara. Uma mulher de quarenta anos, viúva e extremamente sensual. A forma como anda perturba-o - homem habituado à rectidão das rotinas - pois ela balança, oscilando entre a provocação e a falsa timidez que as mulheres tão bem conseguem representar. A imprevisibilidade da atitude e dos olhares enlouquecem-no. O cheiro tem som, o aroma é um ruído intenso mas agradável, enfim... troca-lhe os sentidos.
Em dezembro, num dia de chuva e escassa luminosidade, Sara entra encharcada no gabinete. Ele bebia café e fumava. Semelhante a um filme de detectives, o cliché americano da mulher de gabardine, óculos escuros como que escondendo a identidade, transformaram o gabinete num cenário a preto e branco de película envelhecida.
- Sara, que se passa? Espere... deixe-me dar-lhe uma toalha.
- Obrigada Sr. Inspector. Fico feliz por estar no escritório. Desculpe não ter avisado e... ter aparecido assim... - quando retira a gabardine encharcada, revela que nada mais tem vestido que uma lingerie preta. Soutien rendado, ligas e meias, cuecas quase transparentes.
- Sara... que está a fazer?
- Sr. Inspetor... - aproxima-se da secretaria com um andar sensual, serpenteando pelo soalho de madeira.
- Isto é deveras inapropriado.
- Tenho pensado tanto em si. Você tem-me ajudado tanto e preocupa-se comigo. Faz tanto tempo que ninguém se preocupa comigo. Sinto-me sozinha sabe?
- Sara, estou apenas a fazer o meu trabalho. Não deve confundir as coisas.
- Sr. Inspector - murmurando-lhe ao ouvido - sabe há quanto tempo não sinto o peso de um homem em cima de mim? Quero que me possua, aqui, no seu gabinete, em cima da sua secretária.
Voltando-se de costas, Sara roça o rabo contra o mastro do Inspector que, por baixo das calças, cresceu num ritmo alucinante, tal como um nascer de sol no verão.
Ele beija-lhe o pescoço enquanto, com a mão direita, lhe aperta as ancas puxando-a contra si num gesto de desejo animal.
Apenas os arfares de Sara e o tic tac do relógio de parede ecoam no gabinete da Lei. Os longos cabelos negros de Sara e os seus aromas doces inebriam o Inspetor, fazendo-o perder a postura de homem rígido e inflexível. Ao mesmo tempo que lhe mordisca a orelha esquerda, penetra-a com dois dedos, sentido como está molhada e quente. É uma verdadeira mulher; os pelos aparados e suaves, os lábios carnudos e o seu sumo quente e escorregadio.
Os processos caiem no chão. Dobrada e apoiada nos cotovelos é penetrada por trás, pelo homem da Lei. Cada penetração consegue ser mais profunda e intensa. Por momentos o Inspector fecha os olhos, e, todos os cenários, provas, documentos e pistas referentes ao caso de Sara, deslocam-se em frente dos seus olhos. Lá dentro, por baixo das pálpebras e no cérebro mesmo em frente à testa, tudo começa a fazer sentido. O lenço negro no chão perto do morto. O olhar aterrorizado do cadáver como se tivesse sido atacado de surpresa. O testamento da herança que seria agora de Sara, caso não tivesse desaparecido. E a última pista... as ligas negras que ela usa. O Inspetor vem-se fortemente dentro dela murmurando-lhe ao ouvido: - Sei quem assassinou o seu marido...