Sara e o Outono

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Gosto de imaginar vidas; às vezes, a minha não me chega. Pessoas e situações que provocam arrepios na nuca, pele de galinha nos braços, um prelúdio de uma erecção que não desejei. Escrever tem esse efeito em mim. Quando estou aborrecido, as palavras fazem-me companhia mas gozam-me. Provocam-me como só uma vergonha o pode fazer.

Penso no Outono e como se foi sem que eu o tivesse aproveitado. Já o Inverno chegou pontual. Não comi castanhas, nem bebi jeropiga. Não terminei nenhum amor de Verão – nem cheguei a começar. Não me dou bem com inícios.

Inventei Sara, ou uma desculpa para ficar acordado.

Sara tem trinta e oito anos e diz que pinta. Agora toda a gente anda muito ocupada e é muito produtiva.

Toda as manhãs, no duche, escuta a música que deixou a tocar no quarto. Kind of Blue é um álbum mágico. O jazz sofre de uma ingrata dualidade; tanto serve para música ambiente em casas de banho como para intermináveis discussões intelectuais. Quando o saxofone começa um solo, o gato da vizinha mia por comida. Nada dura muito tempo, há sempre algo a sobrepor-se.

Sara fecha a torneira e cobre o corpo molhado com a toalha branca. Deixo de a ver no espelho embaciado, como os meus óculos – fica apenas a sombra e a memória.

Observo-a pela janela da cozinha. Ela não me vê. Prefiro assim.

Gosto dos pêlos negros do seu triângulo de vénus. Da pele branca e da veia azul que desce pela coxa direita, como uma palavra invisível rasurada. O cabelo, ainda molhado e desamanhado, é uma gata persa por lamber e cuidar.

Os vizinhos são idosos e crianças. Sara é um erro. Divorciou-se faz agora 4 anos e desde então não teve paciência para fingir um amor.

Tem amantes, namorados, affairs de circunstância e isso é suficiente. Não quer construir uma relação: ser compreensiva, empática, sensual, inteligente e todas as coisas que agora as pessoas têm de ser.

Dantes apaixonavam-se. Isso era o suficiente. As brigas, os desentendimentos, eram detalhes a ignorar. Sara escolheu vários homens por não ter paciência para um só.

Tem roupa interior perfeita, nova e sempre arrumada. As cuecas dobradas de forma certa. Os sutiãs ordenados em degradé na gaveta da cómoda do quarto. 

No final de cada dia, quando volta do emprego e poisa a mala no sofá da sala, despe a saia. As meias de malha justas às pernas, coxas e rabo cedem. Esperei por este momento desde a manhã.

Inspiro fundo. O chão amolece, o coração cria novos ritmos. O corpo arrepia-se. Não faço nada. Tenho esse grande talento.

O sofá contrasta com a palidez da pele. Agarrada ao telemóvel, sorri. Uma mensagem atrevida, assim desejo que seja. Mas não minha. Não tenho esse hábito nem o seu número. Nunca o faria. Gosto assim. De desejar sem me esforçar.

Que prazer existiria se Sara me fosse acessível? À mão de semear. Ao toque no joelho nu e ao cúmplice sorriso de meia boca. Linda pintura mas um sol de pouca dura.

Prefiro esta fantasia de bairro. Uma coisa sonhada.

A vergonha vem depois.

Lisboa, 30 de dezembro 2025
um Velho Pervertido