Valverde

Há um enorme sobreiro, em Valverde, junto a Évora, que sobreviveu a todas as guerras do último século. Um sobreiro tão grande e cortiçado que sua durante o Verão e, no tempo frio, agasalha famílias de pássaros e insectos. Passei grande parte da minha infância nestas terras e esta árvore não me é estranha, somos íntimos como se partilhássemos raízes vitais.
Na ultima tarde do Outono, enquanto pelos campos sentia o tempo mudar, como um prelúdio de uma inspiração profunda, encontrei um pequeno cofre de madeira castanha, envelhecida mas rígida. Junto ao sobreiro, ali jazia, meio enterrado na terra castanha. Talvez o tempo o tenha feito surgir das profundezas do passado, ou tivesse ali sido deixado por alguém com segredos.
Sentado num velho tronco, planado pelo tempo, observei o cofre com a intenção de saborear este momento de expectativa e novidade. O desejo de me sentir incrédulo, o coração a responder ao estímulo como um sonho. A respiração e o suor frio na palma das mãos. Hesito em abrir o pequeno baú.
E se?
E se o que encontrar for apenas um vazio?
Imagino que o maior tesouro do mundo está aqui, nas palmas das minhas mãos, como um pai que segura o filho pela primeira vez. É este o vento que sopra as folhas e as faz assobiar que me convence do que já sei. O grande tesouro, perdido, o grande desejo nunca cumprido, prestes a ser desvendados pelas minhas mãos, aqui em Valverde. O sobreiro sabe-o bem. O calor que emana da sua cortiça é espesso, sinto-o na face. Uma memória de carícia, é como o sinto, é como o sei.
Para quê apressar? Porque não perceber como a terra se move, tímida? Uma toupeira ou um coelho pelo campo fora, pela paisagem, a pele.
Caminho de volta à quinta, onde o resto da família em tertúlia constante junto ao lume de chão, evoca memórias do passado, histórias que nos fazem rir, numa vergonha muito alentejana.
Observamo-nos como se fôssemos agora outro eu, a ver o que fomos nesses tempos.
Fujo em reclusão sem ninguém se aperceber ou importar.
Junto ao tanque de rocha, o ímpeto de abrir o pequeno cofre. A relíquia no meu colo, inocente, sem dono e sem passado. Um trinco mínimo, com ferrugem antiga, solta-se facilmente. Levanto a tampa semelhante a uma caixa de jóias e encontro um papel dobrado e uma fotografia. Uma imagem a preto e branco com arestas ratadas. O branco amarelado é reconfortante.
Fico assim algum tempo. Quedo com a relíquia no colo, como quem adormece uma cria.
Na fotografia reconheço um contorno de algo que já vi antes. Não sei onde nem quando. Há algo que me diz que estou a trespassar terrenos íntimos.
Não leio o papel. Há certas coisas que devem ser deixadas para quem foram pensadas e sentidas.