Carlos

Quando Carlos regressou a casa após o dia de trabalho, o prédio não tinha luz. Ele tinha as meias molhadas. O passeio junto ao prédio estava inundado. Uma rotura numa conduta, foi o que lhe disseram os homens da câmara, enquanto tentavam resolver a coisa, com lanternas de mineiro no capacete. Falaram pouco. Sofriam de uma urgência lenta. Um desânimo obrigatório.
A fome apertava, o dia tinha sido longo. Subir as escadas às cegas não lhe apeteceu. Resolveu então, como por instinto de desenrasca, ir comer fora. Fazer tempo. Observar as pessoas como quem observa plantas – sem esperar nada em troca.
No fundo da rua havia o restaurante chinês. Degradado mas limpo. Nos anos 90, esses restaurantes invadiam Portugal e eram uma moda. Os pais adoravam galinha com amêndoas. Chop suey era um novo termo que chegava para ficar. Arroz chau chau, mas sem cão, foi um sucesso imediato e a malta ria-se. Carlos entra. Quem sabe na volta já a rotura esteja arranjada e a luz ilumine o prédio como numa noite de outono.
O restaurante, vazio. Quer dizer, quase. Um casal de velhotes, numa das mesas mais afastadas, comia devagar. Tremiam-lhes as mãos. Tinham os pauzinhos poisados na borda do prato e utilizavam garfo e faca. Os olhos aguados, mas não choravam.
Carlos observou-os por breves instantes. Talvez uma meia dúzia de segundos. O tempo suficiente para imaginar como se sente aquela vida. Como seria chegar ali. Seria amor ou apenas hábito? Talvez fosse só a necessidade de companhia. Por vezes, a presença de um cão é o suficiente para não se desesperar em solidão.
“Tens de gostar da tua companhia”. Carlos nunca soube como responder a isso.
Pediu um crepe, carne de vaca com cogumelos chineses e um arroz chau chau.
– Para beber? – perguntou o rapaz indiano que servia às mesas.
– Água com gás.
O serviço foi rápido. O crepe devia ser aberto, quase esventrado, coberto com molho de soja e picante. Era assim que Carlos fazia. Depois, um sorvo na água para limpar o palato.
Entraram dois casais que ocuparam a mesa redonda. No restaurante chinês, partilhar é quase obrigatório. Carlos não partilha, Carlos está sozinho.
Os casais falavam todos ao mesmo tempo como se pensassem em voz alta:
– Da ultima vez comi o pato à Pequim.
– Acho que vou querer sopa.
– Vamos partilhar ?
Carlos abandonou aquela conversa. Os pratos chegaram. Comeu em silêncio.
Quando terminou, pagou depressa. Pegou na canadiana e voltou para casa. A entrada do prédio ainda estava molhada, mas já não havia inundação. A luz amarela tinha regressado e iluminava o átrio com um brilho desconfortável.
Entrou no apartamento, fechou a porta e sentou-se. Retirou a prótese da perna direita e esticou-se na cama. Ficou imóvel, atento ao próprio respirar. Os dias terminam sempre com a promessa de que o amanhã poderá chegar. Carlos não fez nada com ela.