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Perversões

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Mendigo de olhos verdes

Os seus olhos verdes iluminavam o bairro. Os dias nas ruas eram bastante solitários e a cama construída com velhos cartões e alguns lençóis que foi recolhendo de contentores de lixo era ingrata e penosa. As horas eram longas durante a noite, principalmente no inverno, quando o frio teimava em fazer-lhe companhia.

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Sobre a consciência das coisas

Existem duas luas, uma com tons vermelhos - lama que cobre o astro num eterno sangrar - e a outra, a mais pequena, branca e virginal como uma pérola celeste. Todos somos feitos da mesma matéria merdosa que compõe o universo. A vida consiste em viajar por ele à velocidade do nosso planeta - que vertigem de tempo e espaço - e sofregamente aguardar pelo fim do processo da célula que nasce e morre.

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Anónimos

Sentados em círculo aguardávamos. Em silêncio, ou em conversas murmuradas, tentávamos esconder a vergonha e a insegurança que nos levou até ali. Quatro mulheres, sentadas e intercaladas por quatro homens. Do meu lado esquerdo uma loira vistosa. Quarenta anos vividos. Aliás, todos nós éramos vividos e penitentes no mundo da perversão e promiscuidade caso contrário, não estaríamos reunidos como quem aguarda julgamento.

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Nesta idade

É nesta idade que as cores perdem a vivacidade e ganham um sabor e texturas nunca antes sentidas. É nesta idade que as perdas são sentidas como oportunidades de mudança, seja esta desejada ou não. Nesta idade há mais perversão e o Amor é uma ideia tão linda (ou um mafarrico pequenino e difícil de apanhar). Ontem, quando ainda estava um calor de derreter rocha, conduzia perto do Cais do Sodré em frente ao Mercado da Ribeira. Abrandei para uma menina atravessar a estrada.

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Sem título II

É difícil não ceder à tentação – pensou ele quando numa proposta direta, fria e sem espinhas, ela insinuou que queria por ele ser possuída. O peso sobre os seus ombros fez se sentir quando, no leve movimento de língua, ela saboreou o momento que poderia advir desta nova aventura. Claramente era uma leoa assanhada em fértil período de perversão.

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Encontro cego

Foi com a vontade de nos apaixonar que combinamos encontrar-nos em Buenos Aires. Eu cheguei primeiro. Ele estava atrasado. Sei que o trânsito nesta cidade torna-se um pesadelo, principalmente nas sextas feiras por volta da hora do jantar. Não somos apologistas de encontros cegos, no entanto, todos os encontros são cegos e assim aconteceu.

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Mulheres e caudas

Esperava por elas na esplanada. Ali mesmo perto da Feira da ladra, no Jardim de Santa Clara. A primeira a chegar é Dalila. Apesar de a conhecer desde sempre, sinto que cada vez que a vejo descubro algo novo. Seja um recente cabelo branco que descansa sobre a testa, ou uma opinião descabida sobre um assunto que à partida pensei que estaríamos de acordo.

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No abraço

Abraçaram-se tocando peito com peito, coração com coração. As faces, suadas e desconhecidas, roçaram levemente, expressando uma timidez que ambos desejavam que evaporasse. Os corpos que procuram sintonia tornam-se sensíveis e atentos a pormenores invisíveis. Apenas dentro do abraço existem.

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Escritor famoso

Poemas e prosas. As palavras são-lhe fáceis, como sacar caricas de médias ou como ver as horas no grande relógio da igreja. Aprendeu a ler e a escrever sozinho apenas olhando os livros que o pai lhe lia. As pessoas diziam que era um génio mas ele nunca se sentiu como tal. Na insegurança que um génio tem, sempre duvidou das suas capacidades e por isso, esforçava-se mais que qualquer outra pessoa.

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O porteiro

Começo o dia acompanhado pelo som de uma aleatória sinfonia clássica. Sento-me à secretária. Quando abandonei a pequena aldeia onde nasci, em busca de uma vida aventurosa e estimulante, nunca imaginei que acabaria aqui. Sentado, olhando o vazio, ocupando o tempo com deambulações pelas memórias e seguindo o voo das moscas varejeiras que ocasionalmente entram no prédio. Durante a noite, as longas horas na escuridão afogam-me a vida. Efémera e sem expectativas.

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