Perversões
Quando Carlos regressou a casa após o dia de trabalho, o prédio não tinha luz. Ele tinha as meias molhadas. O passeio junto ao prédio estava inundado. Uma rotura numa conduta, foi o que lhe disseram os homens da câmara, enquanto tentavam resolver a coisa, com lanternas de mineiro no capacete. Falaram pouco. Sofriam de uma urgência lenta. Um desânimo obrigatório.
Gosto de imaginar vidas; às vezes, a minha não me chega. Pessoas e situações que provocam arrepios na nuca, pele de galinha nos braços, um prelúdio de uma erecção que não desejei. Escrever tem esse efeito em mim. Quando estou aborrecido, as palavras fazem-me companhia mas gozam-me. Provocam-me como só uma vergonha o pode fazer.
Penso no Outono e como se foi sem que eu o tivesse aproveitado. Já o Inverno chegou pontual. Não comi castanhas, nem bebi jeropiga. Não terminei nenhum amor de Verão – nem cheguei a começar. Não me dou bem com inícios.
Descia a avenida Fontes Pereira de Melo, em Lisboa, e encontrei um meteorito sentado num banco, a escrever poemas. Foi estranho à primeira vista. Não que um meteorito não possa escrever poemas; eu é que nunca tinha visto tal coisa.
Bebia uma caneca loira e reparei na mesa de madeira da esplanada. A cadeira assemelhava-se a um instrumento de tortura de um consultório médico antigo e era ocupada por uma miúda ruiva,
Eu sei o que tenho em Évora.
Tenho a mármore branca da da fonte que me recorda a pele suave dos amores de adolescência. As paixões platónicas em cada arcada.
No passado domingo, na Casa do Alentejo, o baile não era temático mas, por falta de motivo melhor, as velhotas embonecaram-se e algumas levaram as netinhas como companhia. Cidália era uma conhecida de António, e a neta, uma boneca de 27 anos acompanhou-a. Quando entrou no salão de baile com a avó, já António bebericava um tinto e quase se engasgou. Aquele golo de vinho não foi de beber, foi de comer, como se algo lhe entrasse pela guela sem ter sido mastigado.
Foi semelhante à primeira vez que assisti ao nascer do dia. Na inocência de quem pouco viveu, tudo parece bastante brilhante, e os sons são tão nítidos e puros que quase que podemos jurar que o Paraíso é isto. Recordo-me perfeitamente.
Primeiro um ombro, uma alça que cai e o seio desnudo exibe-se. Muito tímido, mas seguro da sua beleza. Os meus olhos apenas brilhavam esperançosos. Aquela esperança que as crianças cultivam até que a vida lhe dá um pontapé bem assente na Alma ou na Honra.
Recordo-me perfeitamente.
Havia um aguaceiro no seu olhar e um sabor acre nos lábios, como se tivesse feito uma direta e o fígado gritasse por auxílio; as despedidas costumam ter este tipo de efeitos secundários. Nunca havíamos dado as mãos, mas naquela tarde, soubemos que seria o primeiro entrelaçar de dedos. A sombra das nuvens invadia a cidade como uma aguarela e havia o som de folhas de árvores no vento.