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Perversões

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A tua história
Podcast

Terminei a tua história.

Para dizer a verdade nem foi muito difícil. Recordas-te quando voltámos do Porto e tu estavas cansada. Foste para a cama cedo. Nessa noite, sentei-me ao computador e comecei a escrever. Bebi vinho. Fiz várias pausas entre parágrafos e espreitei-te, deitada, dormindo pacificamente. Com o olhar, percorri as tuas pernas descobertas e as tuas cuecas, brancas e justas à pele. Por vezes respiravas fundo. Mexias-te ligeiramente ou coçavas o rabo e eu voltava a sentar-me ao computador. Fiz quase uma directa mas terminei.

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Das profundezas

Apesar de sentir atracão pelas profundezas, não era mineiro nem mergulhador, aliás, nem sabia nadar. Nunca tinha visto o mar. Falo das profundezas da alma. Das caves mais escondidas da mente sem alquimia ou esoterismo, entenda-se! Falo dos cantos mais recônditos, onde os sonhos nascem como pequenas fontes, onde as memórias se condensam e formam diamantes translúcidos. Por vezes, apenas e só quando os remorsos são cortantes, o sangue flui. Esses diamantes, esses mesmos que são memórias, tornam-se rubis escarlates. Pois bem, ele estudava a fundo a fundura da mente. Aprendeu lendo os livros, ouvindo os velhos, ouvindo os novos. Conversando consigo durante horas de meditação e não menos importante, olhando a Natureza. A noite e a luz, o negro do céu e o brilho dos astros, deram-lhe grandes lições sobre distância e imortalidade.

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História de um qualquer reencontro

O que se passou naquela primeira vez, quando resolvemos fugir até ao vazio de um montado, é uma memória que conservo num pequeno frasco à prova de luz para que nunca desapareça ou se estrague.

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Valor Acrescentado
Podcast

Sempre fui uma mulher de poucas palavras. Lembro-me que comecei a falar bastante tarde e os meus pais, preocupados com maus-olhados e outras doenças da época, levaram-me a um médico, por forma a curar-me da ausência de palavras. As ideias, essas não faltavam. Corriam pela minha cabeça como bandos de pássaros. Por vezes, contradiziam-se. As dúvidas surgiam. As questões aumentavam, no entanto as palavras, essas que pouco dizem quando ditas em alta voz, eram inexistentes, e para mim eram igualmente desnecessárias.

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Fantástico

Frequentemente desejo o Fantástico. Conduzir por uma estrada deserta durante a noite e avistar algo inexplicável. Luzes que pelo céu que me seguem; uma mulher na berma da estrada assustadoramente sensual, surgindo do nada, tal como uma assombração…

Sei que deveria andar neste mundo com uma bigorna pesada presa ao calcanhar. Constantemente divago pelas alturas da fantasia. Por vezes, fico preso em memórias ou receios. Inconscientemente construo um trajeto que acerta mesmo na muche do indesejável e penso: “Já fizeste merda outra vez” e pequenas fagulhas de metal incandescente jorram dos meus olhos.


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Final Feliz

É necessário garganta e estômago para engolir os efeitos colaterais de viver. Felizmente utilizamos medidas que definem e justificam a nossa existência, tornando-a mais suportável. É expectável que os dias tenham vinte e quatro horas, que as semanas sejam conjuntos de dias, e assim progressivamente, até termos uma Vida – uns conjuntos de anos.

Mas não apenas de tempo é formada esta existência. Há outras coisas que são igualmente importantes. Por exemplo, a qualidade do tempo passado na Vida. O Saber reunido dentro de nós, o Amor que cultivámos, o Sexo que nos alegra o corpo e a mente.

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Borla

Já estava a ficar bêbado. Aqui bebem muita cerveja e parece que a fonte nunca seca. Não fiquei totalmente perdido na bebedeira, mas mijei umas quantas vezes. Senti aquele solavanco de vai não vai entre a sobriedade e a perda de racionalização.

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Livro usado

Comprei mais um livro e cobicei uma mulher casada. Pecados mortais que apenas desgastam. Os livros, esses pequenos animais domésticos, são como jovens putinhas ou curiosas novidades. Após consumidos até à última frase, para ali ficam esquecidos. Reler um livro é raro, no entanto, volta e meia lá o temos novamente ao colo.

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Vizinha Joaquina

Cresci no centro da antiga cidade. Rodeado por muralhas e ruas calcetadas em estilo romano. Não com a geometria perfeita da calçada portuguesa mas sim a organização caótica de rochas lisas, plantadas no chão, ocupando o seu espaço sem pretenderem pertencer ao Todo.

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Triângulo

Vértice 1 As ruas são planas e limpas. O frio não se sente como se sentia ontem. Hoje, nesta tarde de Setembro, carrego a bússola que me ajudará a chegar sua casa. Uma medusa de cabelos loiros, semelhante a pequenas serpentes albinas com olhar atrevido. Perco-me numa das ruas sem saída, questiono um jovem cavaleiro que por ali encontro onde é a morada que esta medusa me forneceu.

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