um Velho Pervertido

apresenta

O Meteorito que escrevia poemas

#

Descia a avenida Fontes Pereira de Melo, em Lisboa, e encontrei um meteorito sentado num banco, a escrever poemas. Foi estranho à primeira vista. Não que um meteorito não possa escrever poemas; eu é que nunca tinha visto tal coisa. Vestia roupas pretas e tinha longos cabelos negros — o meteorito, entenda-se! Na minha fantasia astronómica, um meteorito deveria ter longos cabelos loiros e fogo no olhar. Um meteorito deveria passar por nós quase sem nos apercebermos do seu corpo; apenas o rasto e o passado são notados. Mesmo esses meteoritos que descrevo nunca vi cara a cara, não tive ainda o privilégio de conhecer.

Este meteorito, que escrevia poemas na avenida Fontes Pereira de Melo, esforçava-se por cravar palavras a lápis num pedaço de papel velho e dobrado. Era desconfortável ver a sua luta. Ora tentava apoiar o papel no joelho, ora na palma da mão, no banco, no vazio... As sílabas eram tremidas, mas nada tímidas, como se a sua matéria não o fosse. Como se este meteorito não fosse pedra, mas linguagem e ideias — da matéria com que se escreve. Eram palavras com muitos erres e pês. Não consegui ler, mas apercebi-me da ânsia e da urgência que o poema exigia. O meteorito escrevia uma palavra como uma pincelada rápida e pausava. Novamente, num impulso, anotava — rê rê rê, tê tu tu — umas letras de forma apressada e contundente, como navalha de barbeiro; aos poucos, as palavras dispunham-se pelo papel em todas as direcções e posições. Talvez seja essa a forma correcta de escrever um poema, cabendo ao leitor escolher o caminho pelo palavreado.

Como um mirone, detive-me a contemplar este acto criativo. O meteorito nunca me viu — assim o penso e acredito. À medida que o observava com atenção, com uma presença inquestionável, a cada nova palavra cravada no papel, o meteorito ia ficando cada vez mais pequeno, mais vago. Era como se fosse composto por sílabas e o acto de as libertar em palavras provocasse a sua dissipação.

Não consigo precisar quanto tempo estive na minha categoria de mirone, mas sei que, quando o meteorito escreveu uma palavra com bastantes tês e erres, sucumbiu, esfumou-se, foi-se... Restou apenas e só uma pequena folha de papel, com palavras aparentemente aleatórias, num banco na avenida Fontes Pereira de Melo.

Lisboa, 17 de novembro 2025
um Velho Pervertido