A noite passada

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J.P. acorda, é Vítor quem telefona.

Quando atende ouve do outro lado da linha os gritos quase histéricos do camarada de noitadas e engates fáceis.

- J., estou no Martim Moniz, na esplanada dos hambúrgueres, vem cá ter.

- Que é que se passa, foda-se, deitei-me super tarde, como é que consegues já estar a pé? Que horas são?

- São duas da tarde maluco, anda lá...

- Liga-me mais tarde. A Luísa está a dormir aqui ao meu lado... Não me lembro de vir com ela.

- Fomos ao R.H. e ela estava lá, deixei de te ver prái às três e meia, deves ter ido para casa com ela. Anda, estou à tua espera - diz Vítor desligando o telefone sem dar hipótese de resposta.

J. P. deixa Luísa na cama e vai à casa de banho mijar. Estava mesmo apertado, era capaz de encher um barril, coça os tomates e o cú e cospe no lavatório. Está com umas olheiras que não lembram ao Diabo e ainda tem zumbidos nos ouvidos. No quarto Luísa mexe-se e murmura:

- J. tás onde? Chega aqui... - tem uma cabeça maior que um melão, e as olheiras...

- O Vítor telefonou, quer que vá ter com ele ao Martim Moniz.

- ... anda aqui... - e rebola novamente na cama voltando-se para a casa de banho por forma a ver J. P.

- Como é que viemos para casa? Lembras-te de alguma coisa? - diz J. enquanto lava a cara por forma a despertar.

- Sei lá... anda, fode-me... ontem estavas bêbado e eu estava tonta, nem me lembro bem se fodemos ou não... anda...

J.P. já nu, pula para cima dela, acaricia-a até ficar duro e quando a beija no pescoço penetra-a numa só estucada. Luísa grita. J. P. geme. Começa lentamente mas vai acelerando à medida que Luísa fica encharcada, o sumo dela escorrer pelas virilhas. J. P. deita-a de barriga para baixo e ao fim de umas dezoito bombadas vem-se.

- Deixa-me chupar-te - diz Luísa enquanto se acaricia.

- Levanta-te temos que ir. Vou ter com o Vítor e tu tens que ir para casa. - diz J.P. agora sentado na cama.

J.P. e Luísa remontam de há muito tempo, desde que tinham dezanove anos e se conheceram perto do cemitério de Benfica. É uma história meio macabra que J. P. costuma contar ao pessoal. Resumidamente, por algum motivo acabaram enrolados dentro de um jazigo que estava em construção. Durante uns anos tinham uma relação estranha, davam quecas de morte, contava o J., no entanto, não se assumiam como casal. Hoje em dia as suas quecas continuam ligadas à morte mas de uma outra forma, são semelhantes a doentes terminais que quase sem força tentam agarrar-se ao que resta de esperança.

Luísa voltou para casa. Assim que entrou e percorreu o pequeno corredor em direção à sala, passou pelas portas dos quartos e ouviu gemidos e respirares intensos, devia certamente ser a amiga com quem partilha casa, com o namorado ou um engate qualquer. Ignorou e na sala estiraçou-se no sofá, cansada, excitada, sem posição para estar mas molengona demais para procurar conforto. Ainda estava húmida da queca com J.P., apesar de se ter limpado sentia ainda restos dele dentro de si. Restos, é o que subsiste após a morte. A noite foi longa, a ressaca pesa. Luísa toca-se no sofá da sala, saciando o desejo que J. havia sido incapaz de alimentar. Levanta-se e vai para a cama dormir. Do quarto da amiga, apenas silêncio...

Quando acorda, já o sol se havia tornado Lua, o silêncio na casa tinha sido violado por vozes que desapareceram assim que o sonho no qual vive termina. As noites tornam-se dias longos e escuros quando está sozinha. A insatisfação carnal que sente constantemente é semelhante à sensação de queda e faz com que se agarre ao primeiro corrimão que encontra, para restabelecer o equilíbrio. J.P. é um desses corrimões, irregulares e vacilantes. Na noite anterior, quando ambos se encontravam já bêbados no R.H., Luísa pegou J. pela mão e levou-o à casa de banho das mulheres, trancando a porta atrás de si. Cheirava mal, o chão estava nojento, numa mistura de mijo com pegadas de lama e cerveja e Gin que agora está na moda. Foderam mesmo ali, calças no chão, saia para cima, cuecas para o lado, leite derramado. Foi excitante. Quando saíram, uma fila de mulheres nervosas para mijar olharam com desdém, tal como quando estamos na fila do multibanco e um artolas se lembra de fazer os seis pagamentos mensais e demora uma eternidade de cinco minutos. J. bebeu mais uma imperial, pegou em Luísa pela mão e foram para o seu apartamento na Graça. Caíram na cama nus, apenas com as meias, masturbaram-se e adormeceram cada um para seu lado.

Lisboa, 08 de novembro 2015
um Velho Pervertido