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    <title>Um Velho Pervertido</title>
    <description>Perversões</description>
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      <title>Valverde</title>
      <description><![CDATA[<p><img src="https://umvelhopervertido.com/application/files/7717/6799/4553/Valverde_.JPG" /></p>

    <div class="content"><p>H&aacute; um enorme sobreiro, em Valverde, junto a &Eacute;vora, que sobreviveu a todas as guerras do &uacute;ltimo s&eacute;culo. Um sobreiro t&atilde;o grande e corti&ccedil;ado que sua durante o Ver&atilde;o e, no tempo frio, agasalha fam&iacute;lias de p&aacute;ssaros e insectos. Passei grande parte da minha inf&acirc;ncia nestas terras e esta &aacute;rvore n&atilde;o me &eacute; estranha, somos &iacute;ntimos como se partilh&aacute;ssemos ra&iacute;zes vitais.</p>

<p>Na ultima tarde do Outono, enquanto pelos campos sentia o tempo mudar, como um prel&uacute;dio de uma inspira&ccedil;&atilde;o profunda, encontrei um pequeno cofre de madeira castanha, envelhecida mas r&iacute;gida. Junto ao sobreiro, ali jazia, meio enterrado na terra castanha. Talvez o tempo o tenha feito surgir das profundezas do passado, ou tivesse ali sido deixado por algu&eacute;m com segredos.</p>

<p>Sentado num velho tronco, planado pelo tempo, observei o cofre com a inten&ccedil;&atilde;o de saborear este momento de expectativa e novidade. O desejo de me sentir incr&eacute;dulo, o cora&ccedil;&atilde;o&nbsp; a responder ao est&iacute;mulo como um sonho. A respira&ccedil;&atilde;o e o suor frio na palma das m&atilde;os. Hesito em abrir o pequeno ba&uacute;.</p>

<p>E se?</p>

<p>E se o que encontrar for apenas um vazio?</p>

<p>Imagino que o maior tesouro do mundo est&aacute; aqui, nas palmas das minhas m&atilde;os, como um pai que segura o filho pela primeira vez. &Eacute; este o vento que sopra as folhas e as faz assobiar que me convence do que j&aacute; sei. O grande tesouro, perdido, o grande desejo nunca cumprido, prestes a ser desvendados pelas minhas m&atilde;os, aqui em Valverde. O sobreiro sabe-o bem. O calor que emana da sua corti&ccedil;a &eacute; espesso, sinto-o na face. Uma mem&oacute;ria de car&iacute;cia, &eacute; como o sinto, &eacute; como o sei.</p>

<p>Para qu&ecirc; apressar? Porque n&atilde;o perceber como a terra se move, t&iacute;mida? Uma toupeira ou um coelho pelo campo fora, pela paisagem, a pele.</p>

<p>Caminho de volta &agrave; quinta, onde o resto da fam&iacute;lia em tert&uacute;lia constante junto ao lume de ch&atilde;o, evoca mem&oacute;rias do passado, hist&oacute;rias que nos fazem rir, numa vergonha muito alentejana.</p>

<p>Observamo-nos como se f&ocirc;ssemos agora outro eu, a ver o que fomos nesses tempos.</p>

<p>Fujo em reclus&atilde;o sem ningu&eacute;m se aperceber ou importar.</p>

<p>Junto ao tanque de rocha, o &iacute;mpeto de abrir o pequeno cofre. A rel&iacute;quia no meu colo, inocente, sem dono e sem passado. Um trinco m&iacute;nimo, com ferrugem antiga, solta-se facilmente. Levanto a tampa semelhante a uma caixa de j&oacute;ias e encontro um papel dobrado e uma fotografia. Uma imagem a preto e branco com arestas ratadas. O branco amarelado &eacute; reconfortante.</p>

<p>Fico assim algum tempo. Quedo com a rel&iacute;quia no colo, como quem adormece uma cria.</p>

<p>Na fotografia reconhe&ccedil;o um contorno de algo que j&aacute; vi antes. N&atilde;o sei onde nem quando. H&aacute; algo que me diz que estou a trespassar terrenos &iacute;ntimos.</p>

<p>N&atilde;o leio o papel. H&aacute; certas coisas que devem ser deixadas para quem foram pensadas e sentidas.</p>

<p>&nbsp;</p>

<h5><em>Fotografia por Jo&atilde;o Manita</em></h5>
</div>
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      <pubDate>Fri, 09 Jan 2026 21:37:00 +0000</pubDate>
      <link>https://umvelhopervertido.com/pt/perversoes/valverde-o-bau</link>
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    </item>
    <item>
      <title>Carlos</title>
      <description><![CDATA[<p><img src="https://umvelhopervertido.com/application/files/2817/6753/9712/Carlos_2026.jpg" /></p>

    <div class="content"><p>Quando Carlos regressou a casa ap&oacute;s o dia de trabalho, o pr&eacute;dio n&atilde;o tinha luz. Ele tinha as meias molhadas. O passeio junto ao pr&eacute;dio estava inundado. Uma rotura numa conduta, foi o que lhe disseram os homens da c&acirc;mara, enquanto tentavam resolver a coisa, com lanternas de mineiro no capacete. Falaram pouco. Sofriam de uma urg&ecirc;ncia lenta. Um des&acirc;nimo obrigat&oacute;rio.</p>

<p>A fome apertava, o dia tinha sido longo. Subir as escadas &agrave;s cegas n&atilde;o lhe apeteceu. Resolveu ent&atilde;o, como por instinto de desenrasca, ir comer fora. Fazer tempo. Observar as pessoas como quem observa plantas &ndash; sem esperar nada em troca.</p>

<p>No fundo da rua havia o restaurante chin&ecirc;s. Degradado mas limpo. Nos anos 90, esses restaurantes invadiam Portugal e eram uma moda. Os pais adoravam galinha com am&ecirc;ndoas. <i>Chop suey</i> era um novo termo que chegava para ficar. Arroz <i>chau chau</i>, mas sem c&atilde;o, foi um sucesso imediato e a malta ria-se. Carlos entra. Quem sabe na volta j&aacute; a rotura esteja arranjada e a luz ilumine o pr&eacute;dio como numa noite de outono.</p>

<p>O restaurante, vazio. Quer dizer, quase. Um casal de velhotes, numa das mesas mais afastadas, comia devagar. Tremiam-lhes as m&atilde;os. Tinham os pauzinhos poisados na borda do prato e utilizavam garfo e faca. Os olhos aguados, mas n&atilde;o choravam.</p>

<p>Carlos observou-os por breves instantes. Talvez uma meia d&uacute;zia de segundos. O tempo suficiente para imaginar como se sente aquela vida. Como seria chegar ali. Seria amor ou apenas h&aacute;bito? Talvez fosse s&oacute; a necessidade de companhia. Por vezes, a presen&ccedil;a de um c&atilde;o &eacute; o suficiente para n&atilde;o se desesperar em solid&atilde;o.</p>

<p>&ldquo;Tens de gostar da tua companhia&rdquo;. Carlos nunca soube como responder a isso.</p>

<p>Pediu um crepe, carne de vaca com cogumelos chineses e um arroz <i>chau chau</i>.</p>

<p>&ndash; Para beber? &ndash; perguntou o rapaz indiano que servia &agrave;s mesas.</p>

<p>&ndash; &Aacute;gua com g&aacute;s.</p>

<p>O servi&ccedil;o foi r&aacute;pido. O crepe devia ser aberto, quase esventrado, coberto com molho de soja e picante. Era assim que Carlos fazia. Depois, um sorvo na &aacute;gua para limpar o palato.</p>

<p>Entraram dois casais que ocuparam a mesa redonda. No restaurante chin&ecirc;s, partilhar &eacute; quase obrigat&oacute;rio. Carlos n&atilde;o partilha, Carlos est&aacute; sozinho.</p>

<p>Os casais falavam todos ao mesmo tempo como se pensassem em voz alta:</p>

<p>&ndash; Da ultima vez comi o pato &agrave; Pequim.</p>

<p>&ndash; Acho que vou querer sopa.</p>

<p>&ndash; Vamos partilhar ?</p>

<p>Carlos abandonou aquela conversa. Os pratos chegaram. Comeu em sil&ecirc;ncio.</p>

<p>Quando terminou, pagou depressa. Pegou na canadiana e voltou para casa. A entrada do pr&eacute;dio ainda estava molhada, mas j&aacute; n&atilde;o havia inunda&ccedil;&atilde;o.&nbsp; A luz amarela tinha regressado e iluminava o &aacute;trio com um brilho desconfort&aacute;vel.</p>

<p>Entrou no apartamento, fechou a porta e sentou-se. Retirou a pr&oacute;tese da perna direita e esticou-se na cama. Ficou im&oacute;vel, atento ao pr&oacute;prio respirar. Os dias terminam sempre com a promessa de que o amanh&atilde; poder&aacute; chegar. Carlos n&atilde;o fez nada com ela.</p>
</div>
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      <pubDate>Sun, 04 Jan 2026 15:17:20 +0000</pubDate>
      <link>https://umvelhopervertido.com/pt/perversoes/carlos</link>
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    <item>
      <title>Sara e o Outono</title>
      <description><![CDATA[<p><img src="https://umvelhopervertido.com/application/files/7517/6710/4947/Sara_e_o_outono.jpeg" /></p>

    <div class="content"><p>Gosto de imaginar vidas; &agrave;s vezes, a minha n&atilde;o me chega. Pessoas e situa&ccedil;&otilde;es que provocam arrepios na nuca, pele de galinha nos bra&ccedil;os, um prel&uacute;dio de uma erec&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o desejei. Escrever tem esse efeito em mim. Quando estou aborrecido, as palavras fazem-me companhia mas gozam-me. Provocam-me como s&oacute; uma vergonha o pode fazer.</p>

<p>Penso no Outono e como se foi sem que eu o tivesse aproveitado. J&aacute; o Inverno chegou pontual. N&atilde;o comi castanhas, nem bebi jeropiga. N&atilde;o terminei nenhum amor de Ver&atilde;o &ndash; nem cheguei a come&ccedil;ar. N&atilde;o me dou bem com in&iacute;cios.</p>

<p>Inventei Sara, ou uma desculpa para ficar acordado.</p>

<p>Sara tem trinta e oito anos e diz que pinta. Agora toda a gente anda muito ocupada e &eacute; muito produtiva.</p>

<p>Toda as manh&atilde;s, no duche, escuta a m&uacute;sica que deixou a tocar no quarto. <i>Kind of Blue</i> &eacute; um &aacute;lbum m&aacute;gico. O jazz sofre de uma ingrata dualidade; tanto serve para m&uacute;sica ambiente em casas de banho como para intermin&aacute;veis discuss&otilde;es intelectuais. Quando o saxofone come&ccedil;a um solo, o gato da vizinha mia por comida. Nada dura muito tempo, h&aacute; sempre algo a sobrepor-se.</p>

<p>Sara fecha a torneira e cobre o corpo molhado com a toalha branca. Deixo de a ver no espelho embaciado, como os meus &oacute;culos &ndash; fica apenas a sombra e a mem&oacute;ria.</p>

<p>Observo-a pela janela da cozinha. Ela n&atilde;o me v&ecirc;. Prefiro assim.</p>

<p>Gosto dos p&ecirc;los negros do seu tri&acirc;ngulo de v&eacute;nus. Da pele branca e da veia azul que desce pela coxa direita, como uma palavra invis&iacute;vel rasurada. O cabelo, ainda molhado e desamanhado, &eacute; uma gata persa por lamber e cuidar.</p>

<p>Os vizinhos s&atilde;o idosos e crian&ccedil;as. Sara &eacute; um erro. Divorciou-se faz agora 4 anos e desde ent&atilde;o n&atilde;o teve paci&ecirc;ncia para fingir um amor.</p>

<p>Tem amantes, namorados, <i>affairs</i> de circunst&acirc;ncia e isso &eacute; suficiente. N&atilde;o quer construir uma rela&ccedil;&atilde;o: ser compreensiva, emp&aacute;tica, sensual, inteligente e todas as coisas que agora as pessoas t&ecirc;m de ser.</p>

<p>Dantes apaixonavam-se. Isso era o suficiente. As brigas, os desentendimentos, eram detalhes a ignorar. Sara escolheu v&aacute;rios homens por n&atilde;o ter paci&ecirc;ncia para um s&oacute;.</p>

<p>Tem roupa interior perfeita, nova e sempre arrumada. As cuecas dobradas de forma certa. Os suti&atilde;s ordenados em <i>degrad&eacute;</i> na gaveta da c&oacute;moda do quarto.&nbsp;</p>

<p>No final de cada dia, quando volta do emprego e poisa a mala no sof&aacute; da sala, despe a saia. As meias de malha justas &agrave;s pernas, coxas e rabo cedem. Esperei por este momento desde a manh&atilde;.</p>

<p>Inspiro fundo. O ch&atilde;o amolece, o cora&ccedil;&atilde;o cria novos ritmos. O corpo arrepia-se. N&atilde;o fa&ccedil;o nada. Tenho esse grande talento.</p>

<p>O sof&aacute; contrasta com a palidez da pele. Agarrada ao telem&oacute;vel, sorri. Uma mensagem atrevida, assim desejo que seja. Mas n&atilde;o minha. N&atilde;o tenho esse h&aacute;bito nem o seu n&uacute;mero. Nunca o faria. Gosto assim. De desejar sem me esfor&ccedil;ar.</p>

<p>Que prazer existiria se Sara me fosse acess&iacute;vel? &Agrave; m&atilde;o de semear. Ao toque no joelho nu e ao c&uacute;mplice sorriso de meia boca. Linda pintura mas um sol de pouca dura.</p>

<p>Prefiro esta fantasia de bairro. Uma coisa sonhada.</p>

<p>A vergonha vem depois.</p>
</div>
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      <pubDate>Tue, 30 Dec 2025 14:29:56 +0000</pubDate>
      <link>https://umvelhopervertido.com/pt/perversoes/sara-e-o-outono</link>
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    </item>
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      <title>O Meteorito que escrevia poemas</title>
      <description><![CDATA[<p><img src="https://umvelhopervertido.com/application/files/4517/6339/9040/IMG_0680.jpg" /></p>

    <div class="content"><p style="text-align: justify;">Descia a avenida Fontes Pereira de Melo, em Lisboa, e encontrei um meteorito sentado num banco, a escrever poemas. Foi estranho &agrave; primeira vista. N&atilde;o que um meteorito n&atilde;o possa escrever poemas; eu &eacute; que nunca tinha visto tal coisa. Vestia roupas pretas e tinha longos cabelos negros &mdash; o meteorito, entenda-se! Na minha fantasia astron&oacute;mica, um meteorito deveria ter longos cabelos loiros e fogo no olhar. Um meteorito deveria passar por n&oacute;s quase sem nos apercebermos do seu corpo; apenas o rasto e o passado s&atilde;o notados. Mesmo esses meteoritos que descrevo nunca vi cara a cara, n&atilde;o tive ainda o privil&eacute;gio de conhecer.</p>

<p style="text-align: justify;">Este meteorito, que escrevia poemas na avenida Fontes Pereira de Melo, esfor&ccedil;ava-se por cravar palavras a l&aacute;pis num peda&ccedil;o de papel velho e dobrado. Era desconfort&aacute;vel ver a sua luta. Ora tentava apoiar o papel no joelho, ora na palma da m&atilde;o, no banco, no vazio... As s&iacute;labas eram tremidas, mas nada t&iacute;midas, como se a sua mat&eacute;ria n&atilde;o o fosse. Como se este meteorito n&atilde;o fosse pedra, mas linguagem e ideias &mdash; da mat&eacute;ria com que se escreve. Eram palavras com muitos erres e p&ecirc;s. N&atilde;o consegui ler, mas apercebi-me da &acirc;nsia e da urg&ecirc;ncia que o poema exigia. O meteorito escrevia uma palavra como uma pincelada r&aacute;pida e pausava. Novamente, num impulso, anotava &mdash; r&ecirc; r&ecirc; r&ecirc;, t&ecirc; tu tu &mdash; umas letras de forma apressada e contundente, como navalha de barbeiro; aos poucos, as palavras dispunham-se pelo papel em todas as direc&ccedil;&otilde;es e posi&ccedil;&otilde;es. Talvez seja essa a forma correcta de escrever um poema, cabendo ao leitor escolher o caminho pelo palavreado.</p>

<p style="text-align: justify;">Como um mirone, detive-me a contemplar este acto criativo. O meteorito nunca me viu &mdash; assim o penso e acredito. &Agrave; medida que o observava com aten&ccedil;&atilde;o, com uma presen&ccedil;a inquestion&aacute;vel, a cada nova palavra cravada no papel, o meteorito ia ficando cada vez mais pequeno, mais vago. Era como se fosse composto por s&iacute;labas e o acto de as libertar em palavras provocasse a sua dissipa&ccedil;&atilde;o.</p>

<p style="text-align: justify;">N&atilde;o consigo precisar quanto tempo estive na minha categoria de mirone, mas sei que, quando o meteorito escreveu uma palavra com bastantes t&ecirc;s e erres, sucumbiu, esfumou-se, foi-se... Restou apenas e s&oacute; uma pequena folha de papel, com palavras aparentemente aleat&oacute;rias, num banco na avenida Fontes Pereira de Melo.</p>
</div>
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      <pubDate>Mon, 17 Nov 2025 16:58:00 +0000</pubDate>
      <link>https://umvelhopervertido.com/pt/perversoes/o-meteorito-que-escrevia-poemas</link>
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    <item>
      <title>Máculas</title>
      <description><![CDATA[<p><img src="https://umvelhopervertido.com/application/files/8817/3168/4989/7A80CDE5-AE84-4B02-A7D1-84C96DCF208A.jpeg" /></p>

    <div class="content"><div style="text-align: justify;">
<p>As minhas flores morrem em poucos dias, instantes no Tempo. Por vezes, em sil&ecirc;ncios in&oacute;spitos, consigo ouvir a seiva secando lentamente, como sangue de plantas, como sangue de vida sem vida, uma n&atilde;o-vida e sil&ecirc;ncio... Sil&ecirc;ncios que, de t&atilde;o ensurdecedores, n&atilde;o me deixam adormecer, e os remorsos. H&aacute; dias em que as noites s&atilde;o tudo para mim e para as minhas plantas, Elas que me respiram observam-me como uma planta observa, sabes? Tamb&eacute;m penso na minha fam&iacute;lia, e como tu, tamb&eacute;m esque&ccedil;o a fam&iacute;lia por mim e pelo Tempo que escoa, como a seiva (e seca), consegues ouvir?</p>

<p>Naquela tarde de Agosto, quando as &aacute;rvores suavam e ofegantes se moviam por entre sombras sem nunca encontrar a tranquilidade de virgem, encontrei-te sozinha (talvez estivesses acompanhada, pois o meu rel&oacute;gio havia parado sem corda ou sem coragem de &quot;tiquetaquetar&quot;; congelado) tu tamb&eacute;m me encontraste. M&atilde;o na m&atilde;o, como quem deseja ser guiado, fomos juntos at&eacute; ao restaurante do Xavier, o mesmo que dias depois nos ofereceu um vinho m&aacute;gico, uvas massajadas por Mulheres Puras e Livres de Pecado, dizia Xavier. Onde ia? M&atilde;o na m&atilde;o, e eu colhi aquele malmequer que secaste num livro do Pedro Paix&atilde;o, pois sabias que n&atilde;o seria eterna na vida, apenas a morte ou um estado de lat&ecirc;ncia poderia ser a sua Condi&ccedil;&atilde;o, e o vinho...</p>

<p>Nessa noite, os nossos corpos fundidos pela primeira vez, o suor do nosso sexo deixou marcas de sud&aacute;rio no meu sof&aacute;, eu nem percebi, tu nem sabias e ambos nem adivinh&aacute;vamos, que o tic e o tac do meu rel&oacute;gio (marcha f&uacute;nebre) marcava como batuta o in&iacute;cio do Tudo (agora irreconhec&iacute;vel como v&iacute;tima de um inc&ecirc;ndio, pois os cigarros queimam a pele e o fumo &eacute; prazer); a seiva escorreu na tua pele (Sexo).</p>

<p>Inocentemente, tentei apagar as manchas &aacute;ridas e des&eacute;rticas dessa noite, insucesso e fracasso &agrave; f&uacute;til exist&ecirc;ncia da &Aacute;gua.</p>

<p>Deves-me um sof&aacute; virgem de mem&oacute;rias? As mem&oacute;rias s&atilde;o putas do Tempo e tu sabias disso... Uns momentos, segundos, minutos ou horas, em troca de um Tudo. Esse sof&aacute; novo apenas vai ser mais uma moeda de troca, pois como eu, tu vendes-te a esse tic-tac, &agrave; seiva que nos refresca (as &aacute;rvores n&atilde;o o sabem).</p>

<p>Voltaremos ao Alentejo, mas desta vez durante o Inverno, o calor dos nossos corpos e o suor diluir&aacute; as manchas de Agosto.</p>

<p>Um beijo.</p>

<p>&nbsp;</p>

<p>Venho-me sempre cedo demais, pois o tempo que agora &eacute; nosso amigo por vezes gosta de ser traidor apenas pelo prazer que provoca, cedo. Acordei rodeado de certezas que ontem pareciam ser difusas; o &aacute;lcool que nos lava a alma e que perde for&ccedil;a com o sal das l&aacute;grimas, n&atilde;o &eacute; justo para quem acredita nele, n&oacute;s aprendemos isso, e depressa esquecemos. Eu disse-te que gostava de escrever poesia mas a dor de a pensar e sentir &eacute; t&atilde;o forte... nunca conseguiria express&aacute;-la, e isso fez-te fria, n&atilde;o &quot;orgasmas&quot; comigo, e isso &eacute; sofrimento. Consigo agora escrever de olhos fechados e cora&ccedil;&atilde;o destru&iacute;do por dentro.</p>

<p>Sabes que hoje me disseram que eu devia consultar um psic&oacute;logo ou psiquiatra, algu&eacute;m que ouvisse a minha alma com ouvidos cient&iacute;ficos, apetrechos e medicamentos, patologias, medicamentos, prozacs da vida urbana, euros, francos e d&oacute;lares, e a Angela Merkel. A solu&ccedil;&atilde;o reside em n&oacute;s; igrejas e seitas. A resposta est&aacute; no Senhor; pol&iacute;tica e hierarquias. A sa&iacute;da est&aacute; &agrave; vista; cegos com bengalas de bambu, pandas... extin&ccedil;&atilde;o.</p>

<p>As minhas rela&ccedil;&otilde;es est&atilde;o cotadas em bolsa, e h&aacute; quem jogue com elas, quem fa&ccedil;a especula&ccedil;&atilde;o, o seu valor nunca vai ser atingido porque ao contr&aacute;rio da Gr&eacute;cia eu ainda acredito que sei fazer bem &agrave; primeira, ainda sei amar, como um adolescente virgem que coleciona discos de vinil dos Doors. Hoje sinto-me t&atilde;o bem como da primeira vez que percebi que o meu pai ia morrer e eu ia passar toda a minha d&eacute;cada dos 20 sem uma refer&ecirc;ncia, Homem. Gostava de ser um Homem, gostava de ser capaz de fazer o que os Homens s&atilde;o capazes de fazer. Um Mandela do Amor, 20 anos preso numa cama com a Mulher que, num dia de primavera (ou inverno chuvoso e cinzento), d&aacute; &agrave; luz o meu primeiro filho (ou filha, ou g&ecirc;meos).</p>

<p>Em tic-tacs, tic-tacs, aquele tempo escoa nas nossas unhas sujas de lava; a terra negra produzida pelo vulc&atilde;o das nossas noites de paix&atilde;o &eacute; agora a nossa cama. E n&atilde;o nos vimos (cegos) org&aacute;smicos (est&eacute;reis), eu em ti, tu em mim. Chegamos t&atilde;o tarde que parece desafiar a Eternidade.</p>

<p>Um beijo.</p>

<p>&nbsp;</p>

<p>Por vezes afasto-me como uma pedra de gelo foge do fogo. Derreto-me em l&iacute;quido incolor desprovido de vida (desnutrido). Sei como isso te magoa, pois entre o frio e o h&uacute;mido (rela&ccedil;&atilde;o pr&oacute;xima e quase sempre indispens&aacute;vel), o nosso calor n&atilde;o &eacute; suficiente para evaporar as espessas mem&oacute;rias (&iacute;ntimas).</p>

<p>A nossa proximidade &eacute; como a de envelope e selo. Cada vez mais rara e gerada por saliva e gestos sexuais intensos (l&iacute;ngua na pele de papel). N&atilde;o acredito em ti quando dizes que fingimos e boicotamos a r&aacute;pida e quase sangrenta vontade que temos um do outro. Animais em c&oacute;pula enganam a natureza pois o l&aacute;tex &eacute; a barreira que nos separa.</p>

<p>O Teatro fica-nos bem. Eu de fato escuro, gravata e sapatos brilhantes, tu de vestido vermelho, la&ccedil;arote na cabe&ccedil;a e perfume.</p>

<p>De bra&ccedil;o dado como um cego e um surdo, pela avenida da liberdade (polui&ccedil;&atilde;o suja-nos as meias), at&eacute; ao teatro nacional, (diogo infante despedido, not&iacute;cia de primeira p&aacute;gina) pseudo-intelectuais de esquerda oferecem-nos flyers de com&iacute;cios, buffets de merda e isqueiros que n&atilde;o funcionam.</p>

<p>E tal qual burguesia, no todo da nossa import&acirc;ncia, sabes que a nossa cama &eacute; um trono sem rei nem rainha. No pal&aacute;cio do cadaval em &Eacute;vora acordamos juntos: &quot;Ol&aacute;, eu sou o Pedro&quot;.</p>

<p>Um beijo.</p>

<p>&nbsp;</p>

<p>Um dia, o meu av&ocirc;, que era poeta de profiss&atilde;o e pastor de of&iacute;cio, disse-me que o tempo n&atilde;o &eacute; mais do que o esperar que a l&atilde; das ovelhas cres&ccedil;a para poderem ser tosquiadas.</p>

<p>Ao longo da minha curta vida, tenho assistido a ciclos, por vezes dentro de outros ciclos, o que me leva a crer que a pr&oacute;pria exist&ecirc;ncia &eacute; um ciclo. Devo estar a tentar encontrar uma raz&atilde;o para a exist&ecirc;ncia como todos os rom&acirc;nticos desesperados.</p>

<p>Quando a minha m&aacute;quina de lavar roupa se avariou, o mundo caiu em cima de mim; duas semanas antes, a minha m&atilde;e tinha-me telefonado a chorar, completamente desesperada, porque a sua m&aacute;quina de lavar roupa tinha avariado. Eu n&atilde;o dei muita import&acirc;ncia, &quot;tudo se resolve&quot;, disse eu. No entanto, foi dif&iacute;cil de engolir, a tecnologia deu cabo do meu dia, acabando sozinho numa casa que n&atilde;o &eacute; minha, esperando que o programa de lavagem terminasse... tudo isto com um copo de vinho que n&atilde;o era meu...</p>

<p>E tu, a tua m&aacute;quina de lavar roupa alguma vez te destruiu o dia? Alguma vez a roupa suja de cama usada perpetuou no teu mundo sem nunca a poderes voltar a lavar? O desespero de umas meias sujas, envelhecendo ao canto de um WC (quase p&uacute;blico); a camisa preferida, eternamente cansada, amarrotada como a pele do sr Elias, amolador de facas e criador de quadras populares?</p>

<p>Por fim, o conforto, sentado na sala, escrevo esta carta, e na varanda a roupa seca; o perfume de roupa lavada invade este espa&ccedil;o misturando-se com o calor das m&aacute;quinas criadoras de sonhos. O conforto de saber que agora &eacute; esperar que o Tempo fa&ccedil;a o resto. Inicia-se o ciclo novamente.</p>

<p>Um beijo.</p>

<p>&nbsp;</p>

<p>&nbsp;</p>

<p><strong>Voltei da minha aus&ecirc;ncia.</strong></p>

<p>Depois de meses em terrenos in&oacute;spitos, voltei a encontrar a flor de amendoeira. Fr&aacute;gil e virginal; o amor origina uma casca dura e dif&iacute;cil de quebrar&nbsp; mas que no seu cerne conserva a semente. Posso cham&aacute;-la feto?</p>

<p>Num outro dia, que j&aacute; n&atilde;o recordo quando, encontrei um velho amigo, mais velho e mais cansado. Perguntou-me pela vida. Eu respondi que ainda a procurava, pois ela escorre entre os dedos como areia fina (uma ampulheta). Disse-lhe que procurava uma forma de a conter nas m&atilde;os. As minhas m&atilde;os est&atilde;o calejadas como as m&atilde;os do livro <em>A Apari&ccedil;&atilde;o</em>. Lembras-te dessas m&atilde;os?</p>

<p>A minha caligrafia est&aacute; cada vez mais impercept&iacute;vel e temo pelo dia em que ningu&eacute;m me entenda. Ou melhor, que ningu&eacute;m me consiga ler. Consegues imaginar pior destino do que ser invis&iacute;vel para o resto do mundo? Detesto pensar que pare&ccedil;o este ou aquele, porque o que escrevo &eacute; muito magro e esquel&eacute;tico, e preciso de muletas, um raqu&iacute;tico na sem&acirc;ntica e na gram&aacute;tica. Gramaticalmente falando, sinto-me uma daquelas classifica&ccedil;&otilde;es que os professores universit&aacute;rios, sem talento na Escrita, inventam, tentando utiliz&aacute;-las como armas brancas, pois sabem que ningu&eacute;m vai conseguir defender-se de um palavr&atilde;o como <em>artigo indefinido</em>, <em>plural ou singular</em>, <em>masculino e feminino</em> no adv&eacute;rbio de modo... E eu sou um poema...</p>

<p>Grito tantas vezes o teu nome que, por vezes, penso ser um eco. Lembro-me quando me dizias que eu podia ser o Humberto, e riamos na relva do jardim, no Outono em Sintra (como detesto Sintra e o Algarve).</p>

<p>Voltei para a mesma cabana onde me deixaste da &uacute;ltima vez que nos encontramos. Agora tenho canaliza&ccedil;&atilde;o, liga&ccedil;&atilde;o direta do meu c&eacute;rebro ao esgoto, um outro cano que liga os meus impulsos prim&aacute;rios a um robot de cozinha, um cabo el&eacute;trico que condiciona os meus pensamentos, aqueles que fogem do que &eacute; aceit&aacute;vel. Mas agora, falando de coisas mais s&eacute;rias (e quando digo s&eacute;rias, n&atilde;o falo de pol&iacute;tica nem da crise, ainda anda por a&iacute;?), conta-me coisas da tua vida. Sei que participaste em encontros arqueol&oacute;gicos liter&aacute;rios. Como foi? Muitos poetas mortos e muitos escritores mal amados? Estou neste momento a arranjar-me de tantas saudades que tenho de te ler, de saber cada v&iacute;rgula e pausa que tens criado. Agora que voltei, e a Primavera parece um Inverno a tocar no Ver&atilde;o, espero poder encontrar-te novamente, flor no cabelo, sorriso amplo como o p&ocirc;r do sol.</p>

<p>A vela est&aacute; a queimar o pavio. Amanh&atilde; fa&ccedil;o uma l&acirc;mpada de azeite e escrevo-te novamente. Natural...</p>

<p>Um beijo.</p>
</div>

<p>&nbsp;</p>
</div>
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      <pubDate>Thu, 21 Nov 2024 17:19:00 +0000</pubDate>
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      <title>Esplanadas</title>
      <description><![CDATA[<p><img src="https://umvelhopervertido.com/application/files/7416/8141/0407/CIMG0718.JPG" /></p>

    <div class="content"><p>Bebia uma caneca loira e reparei na mesa de madeira da esplanada. A cadeira assemelhava-se a um instrumento de tortura de um consult&oacute;rio m&eacute;dico antigo e era ocupada por uma mi&uacute;da ruiva.</p>

<p>&nbsp;</p>

<p>J&aacute; fazia bastante tempo que fantasiava, sonhava com esses cabelos e pelos cor de fogo. Dizia-se, na barbearia que frequento, que as ruivas s&atilde;o diferentes. Sentem tudo, cada toque, cada palpitar de veia.</p>

<p>&nbsp;</p>

<p>As suas pernas eram p&aacute;lidas e sardentas, e as coxas grossas e cheias, sensuais. Um quadro de Seurat, uma constela&ccedil;&atilde;o de pontos subindo na palidez da pele. Certamente, era uma mi&uacute;da de um pa&iacute;s distante, mais que n&atilde;o fosse nos costumes e l&iacute;ngua.</p>

<p>&nbsp;</p>

<p>Por breves momentos, h&aacute; um casal que canta pela rua: ele, com cabelo em cachos, moreno, cabo-verdiano ou algo mais tropical at&eacute;; a mi&uacute;da, loira e com as mamas desca&iacute;das. Ambos cantarolam com um olhar distante de turistas, um sorriso sem hist&oacute;ria, apenas surpresa, genuinidade e espontaneidade t&iacute;pica de turistas, sem pressa nem press&atilde;o.</p>

<p>&nbsp;</p>

<p>A rapariga ruiva olha-me como se n&atilde;o o fizesse intencionalmente. Eu sei, meu amor - pensei - tamb&eacute;m te vejo assim, t&iacute;mida e curiosa. Gosto quando as mulheres se sentam &agrave; minha frente e, assim, sem vergonha, aprecio o cruzar de pernas. Gosto da carne que ondula e origina covas, curvas, ondula&ccedil;&otilde;es. Esse desejo escondido &eacute; animal e carn&iacute;voro.</p>

<p>&nbsp;</p>

<p>Pe&ccedil;o&nbsp;um abatanado e tratam-me por senhor. Curioso e desavergonhado, consigo perceber a conversa do casal que se sentou na mesa ao lado da minha.</p>

<p>Gostava que volt&aacute;ssemos &agrave;s cooperativas - gente burguesa de luxo citadino fala sobre a mis&eacute;ria rural como se de um poema se tratasse - custo zero, diz ela.</p>

<p>&nbsp;</p>

<p>A minha mi&uacute;da ruiva levanta-se e o fogo alastra-se pela esplanada, sem que ningu&eacute;m repare. Apenas eu solto um sorriso como um p&aacute;ssaro enfraquecido, sem esperan&ccedil;a. Ela percebe e fulmina-me com um olhar. N&atilde;o estou na norma, n&atilde;o sigo a moda. O seu traseiro balan&ccedil;a enquanto se afasta.</p>
</div>
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      <pubDate>Thu, 13 Apr 2023 18:27:00 +0000</pubDate>
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      <title>Eu sei o que tenho em Évora</title>
      <description><![CDATA[<p><img src="https://umvelhopervertido.com/application/files/2416/3317/4534/Evora.JPG" /></p>

    <div class="content"><p>Eu sei o que tenho em &Eacute;vora.</p>

<p>Tenho a m&aacute;rmore branca da fonte que me recorda a pele suave dos amores de adolesc&ecirc;ncia. As paix&otilde;es plat&oacute;nicas em cada arcada.</p>

<p>H&aacute; um sorriso, no por do sol visto do jardim Diana, e, &eacute; tal e qual a alegria de um primeiro amor. Tr&aacute;gico fim &eacute; claro, mas, lindo primeiro amor. Torturante mas solarengo. H&aacute; essa pureza inocente em cada pedra da cal&ccedil;ada do beco onde cresci. Vi a vida e a morte fundirem-se, perfeitas, nas campas do cemit&eacute;rio dos Rem&eacute;dios.&nbsp;</p>

<p>Sei que tenho em &Eacute;vora um segredo; lindo como amoras selvagens e a ribeira de Valverde. Tenho o cabelo arruivado da mi&uacute;da da escola prim&aacute;ria, os olhos negros da rapariga da preparat&oacute;ria, o rabo&nbsp;<i>sexy</i>&nbsp;da&nbsp;<i>chavala</i>&nbsp;do liceu.</p>

<p>Guardo em &Eacute;vora tesouros, como as mezinhas antigas, ditados de velhos e velhas que me benzem os bocejos.&nbsp;</p>

<p>Quando a idade permitiu e os euros j&aacute; circulavam, descobri que havia um mundo para al&eacute;m destas muralhas. Haviam caras novas, olhares diferentes, vozes sem cante alentejano e sem h&aacute;lito a coentros. Havia loucura tamb&eacute;m, quecas em s&iacute;tios estranhos, in&oacute;spitos e por vezes sem alma, apenas carne. Voltando &agrave; terra m&atilde;e, numa anta ou numa albufeira, haviam beijos de l&iacute;ngua, paix&atilde;o, sucos nos dedos e nos l&aacute;bios.</p>

<p>H&aacute; m&uacute;sica em cada travessa, sabiam? H&aacute; risos vadios, detalhes nas ombreiras das portas que s&oacute; vemos ap&oacute;s as duas da manh&atilde;.&nbsp;</p>

<p>Tenho em &Eacute;vora uma paix&atilde;o que tal como aguarela, foi-se diluindo no tempo e agora &eacute; nevoa, cacimba.&nbsp;</p>

<p>Em &Eacute;vora h&aacute; tentativas de amor eterno e fingimento de sexo bom. H&aacute; casais sem intimidade que teimam ficar assim. H&aacute; em &Eacute;vora homens altos e mulheres de fibra. Sempre pensei e soube, com certeza absoluta, que n&atilde;o ficaria com uma alentejana destas bandas; a rijeza necess&aacute;ria eu n&atilde;o a tenho.</p>

<p>Tenho em &Eacute;vora regressos. Amadurecimento de pele e carne a cada vez que volto. &Eacute; das terras que temos orgulho em mostrar aos nossos amigos e &agrave;s nossas mulheres. Acho at&eacute; e sei que v&atilde;o concordar, que esta terra mourisca &eacute;&nbsp;<i>m&ecirc;mo</i>&nbsp;boa para o engate. Olha as escapadelas romanticas com vista para o templo. Uma queca inocente algures no meio do nada, l&aacute; para os lados da gra&ccedil;a do Divor.</p>

<p>Sei que em &Eacute;vora encontro aqueles amigos a s&eacute;rio que me d&atilde;o guarida se preciso e at&eacute; - que deus os proteja! - permitem que d&ecirc; fodas na sua cama e n&atilde;o questionam o barulho. S&atilde;o desses amigos queridos que um alentejano precisa.</p>

<p>Sei que tenho em &Eacute;vora esta casa que hoje nos acolhe e nos d&aacute; a liberdade para dizer, pensar e agir sobre o que sentimos e queremos. Sobre o que acreditamos ser certo. Tenho &Eacute;vora na minha vida&nbsp;mas acima de tudo e assim o desejo, &Eacute;vora tem um pouco de mim.</p>

<p>&nbsp;</p>

<p>Lido a 11 de Setembro de 2021 na Sociedade Harmonia Eborense (Mercado Maroto)</p>
</div>
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      <pubDate>Sat, 02 Oct 2021 11:33:00 +0000</pubDate>
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      <title>António, O Lobo</title>
      <description><![CDATA[

    <div class="content"><p>No passado domingo, na Casa do Alentejo, o baile não era temático mas, por falta de motivo melhor, as velhotas embonecaram-se e algumas levaram as netinhas como companhia. Cidália era uma conhecida de António, e a neta, uma boneca de 27 anos acompanhou-a. Quando entrou no salão de baile com a avó, já António bebericava um tinto e quase se engasgou. Aquele golo de vinho não foi de beber, foi de comer, como se algo lhe entrasse pela guela sem ter sido mastigado.</p><p>	António era conhecido pelos demais por Lobo. Era uma daquelas consequências do serviço militar obrigatório, e a guerra; as alcunhas ficam e esquece-se o porquê. </p><p>	Ele achou Ema linda. O seu olhar iluminou todo aquele salão. A música tinha agora mais cor, mais contornos, mais curvas, como uma bela mulher latina. O velho Lobo sentiu o calor. O sangue aqueceu-se-lhe nas veias. Como uma droga que se espalhava pelo corpo, cada vaso sanguíneo dilatava. 	</p><p>	Cidália sorriu e aproximou-se, convidando-se a sentar. Apresentou Ema que educadamente estendeu a mão. António sentiu nesse toque uma compaixão que o desagradou. Ema falou com ele como se fosse um velho senil, como se o tempo esgotasse a cada expiração. O tic tac dos relógios havia-se tornado mais rápido com o passar dos anos. Ema contou-lhe que trabalhava numa empresa moderna, dessas que se vendem em bolsas financeiras e que têm imensa gente estrangeira. António, nada sabia desses assuntos. As pessoas agora falavam por maquinas portáteis conectadas a satélites. Sabia que pouco se tocavam e cheiravam. Hoje em dia, bastava ler cartas que não se escrevem em papel. As pessoas não se namoam nem se fodem como antes. Agora tudo é mais pensado e ponderado. </p><p>	O fim do dia aproximava-se, a luz alaranjada típica de Lisboa, invadia a sala. Os passos dos casais que bailavam marcavam um estranho ritmo. Uma música que não existia e que apenas sobreviveu um breve instante. A dança é assim. Uma memória que nunca foi desejada. Um desejo que apenas existe após consumado. Embrenhado nesses pensamentos absortos, António convida a jovem Ema a dançar. </p><p>	Um dois três, um dois três, um dois três. </p><p>	Ema sorriu e com a mesma condescendência com que o havia cumprimentado, aceitou e estendeu a mão como uma donzela. Lentamente, como um velho debilitado, António levanta-se, o corpo pesa-lhe e as pernas não o ajudam. No momento em que segura a mão da boneca de 27 anos, as pernas tornam-se mais leves e os passos ganham a ligeireza de um rapaz. </p><p>	Um dois três, um dois três, um dois três, a música envolve o abraço que partilham. Dentro dele o Lobo envelhecido, cansado e desdentado, acorda e levanta as orelhas.  Inspira e sente o perfume natural de Ema. </p><p>	Os corações sentem-se e ela sorri, imaginando como o velhote deverá estar feliz e excitado ao dançar com ela. Não desconfia que existe um predador à espreita. O velho Lobo renascia aos poucos. As peladas desapareciam a cada compasso, o cheiro e a audição voltavam a estar perfeitamente sensíveis aos mais singelos detalhes das fêmeas. Os caninos do velho Lobo crescem novos, fortes e com fome. Ema começa a suar e a velocidade vertiginosa da dança fazia-a arfar. </p><p>	- O velho dança bem, filho da mãe! - pensou. </p><p>	Cidália bebia um cházito e sorria ao ver a neta rodopiando nos braços do velho. </p><p> O seu respirar arfante foi sentido por António. O velho Lobo espevitou, e sentiu uma subtil contracção lá em baixo, onde uma tímida erecção desejava dar sinal de vida. A cada volta e cada passo Ema aquecia e o Lobo esforçava-se por mostrar-se inofensivo. A sensibilidade nas pontas dos dedos tornou-se apuradíssima e as costas descobertas de Ema eram suaves e sedosas. Percorreu discretamente os dedos pela pele da jovem; o pervertido encheu o peito. Sentiu o seios de Ema comprimidos contra o seu torço. O calor.</p><p>	Os compassos preenchiam o tempo, e o Lobo, sedento de carne fresca e sangue quente, relembrou a sua juventude quando as fêmeas não escapavam aos seus encantos sedutores. </p><p>	Ema sentiu uma inexplicável excitação.  </p><p>	- Será o velho? - Pensou. - Sinto uma  terceira presença neste abraço. Há uma força predadora nestes braços; um coração pulsante cheio de vida e energia. </p><p>	A sua vulva humedeceu, e no exacto momento em que se sentiu húmida, inconsciente, lambeu os lábios. O Lobo começou a preparando a sua emboscada; imaginou o golpe rápido no pescoço, as mãos deslocarem-se pelas ancas da jovem e por fim, sentir o calor das virilhas.  O orvalho quente da vulva. O Lobo saliva. A música termina.</p></div>
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      <pubDate>Sat, 09 May 2020 06:55:00 +0000</pubDate>
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      <title>Mudo</title>
      <description><![CDATA[<p><img src="https://umvelhopervertido.com/application/files/5215/8832/6916/Mudo.JPG" /></p>

    <div class="content"><p>Foi semelhante à primeira vez que assisti ao nascer do dia. Na inocência de quem pouco viveu, tudo parece bastante brilhante, e os sons são tão nítidos e puros que quase que podemos jurar que o Paraíso é isto. Recordo-me perfeitamente.</p><p>Primeiro um ombro, uma alça que cai e o seio desnudo exibe-se. Muito tímido, mas seguro da sua beleza. Os meus olhos apenas brilhavam esperançosos. Aquela esperança que as crianças cultivam até que a vida lhe dá um pontapé bem assente na Alma ou na Honra.</p><p>Recordo-me perfeitamente.</p><p>Os olhos atraíam-me bastante, e os lábios eram uma fonte onde eu desejava saciar a sede. As ancas e as pernas. O rabo com aquelas cuecas de renda, tão finas e puras como uma escultura grega: perfeita e quase surreal. Os pelos suaves e o cheiro de mulher excitada. Havia estrelas por este céu escuro e eu, com pequenos toques de dedos, unia-as, criando seres mais mitológicos que a própria mitologia havia descrito. Ela gemia de prazer. </p><p>Recordo-me perfeitamente de como as virilhas eram suaves e de uma palidez fantasmagórica. Ela ria muito quando a beijava, ali, naquele pequenino espaço de pele sensível. Os beijos eram intensos, ou como diria o meu velho amigo turco: extremamente intensos. Há pessoas assim, que vivem no extremo da intensidade e menos que isso é nada. </p><p>Recordo-me perfeitamente quando as mãos se entrelaçavam e isso era a nossa intimidade no expoente máximo. As orelhas e a pele mesmo por trás do lóbulo eram doces e suaves. Ela também gostava bastante dessas brincadeiras. As tardes passavam rápido, as noites eram um piscar de olhos e as ausências eram morosas como a Eternidade. Recordo-me perfeitamente, de cada queca, de cada posição, cheiro, fluído, gemido, prazer, e no entanto, por mais que esforce a memória, por mais que exercite o cérebro, não me lembro do seu nome. Hoje, nestes períodos em que a vida avança com um ritmo bem diferente do desses tempos, o nome dela é apenas uma fantasia. Ela é apenas essas partes de corpos, essas sensações vividas e, devo confessar, algumas fantasiadas. Não sei o teu nome, mas recordo-me perfeitamente como nos sentíamos um no outro.</p><p>Hoje choveu. Esteve um tempo cinzento e as pessoas continuam por casa, pois os invasores ainda não deixaram a nossa terra. A pátria foi invadida e violada, gritam os doidos. Sorri. Sorri como eu. É o que lhe digo quando nos abraçamos na cama. Hoje </p><p>vejo-a como um Todo. O seu corpo perfeito e cada curva única. A pele bronzeada, e o cheiro a sexo é uma constante em nós. O seu corpo de mulher não é composto por pedaços eróticos. Toda ela é Una. Não sei se foi por ter desenvolvido miopia e astigmatismo, mas ao longo dos dias, anos, décadas, a mulher foi-se transformando. Toda ela é bela e mesmo as pequenas imperfeições estéticas, são deliciosamente apetecíveis. Os meus novos olhos fizeram-me ver que a simetria é sobrevalorizada. Que tolos são os homens que se limitam a pedaços de carne e de pele, a pequenas formas isoladas; ilhas de erotismo? O movimento da perna nunca poderá ser desconectado do rabo, e as costas que serpenteiam. O cabelo baloiça nessa melodia. Por vezes há um sorriso. Como se fosse proferir algo importante e…não... apenas aquele humedecer de lábios, o olhar que em câmara lenta nos humilha. Toda ela é erotismo. Perdi o interesse pelas palavras, Bela, Beleza... Ela não tem mãos lindas, mas os seus gestos a sua caligrafia, o seu toque... esses sim são os objetos de adoração. </p><p>Recordo-me perfeitamente, foi ontem que nos devorámos em quecas loucas e completas. Os nossos seres enfeitiçados um no outro.</p><p>E sabes uma coisa?</p><p>Ainda sei o teu nome.</p></div>
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      <pubDate>Fri, 01 May 2020 10:58:00 +0000</pubDate>
      <link>https://umvelhopervertido.com/pt/perversoes/mudo</link>
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      <title>A última última vez</title>
      <description><![CDATA[<p><img src="https://umvelhopervertido.com/application/files/7215/8791/5292/A_ultima_ultima_vez.JPG" /></p>

    <div class="content"><p>Havia um aguaceiro no seu olhar e um sabor acre nos lábios, como se tivesse feito uma direta e o fígado gritasse por auxílio; as despedidas costumam ter este tipo de efeitos secundários. Nunca havíamos dado as mãos, mas naquela tarde, soubemos que seria o primeiro entrelaçar de dedos. A sombra das nuvens invadia a cidade como uma aguarela e havia o som de folhas de árvores no vento. Demos uma bela queca esta noite — disse ela. Contemplámos o castelo e as pequeninas pessoas que ao longe, lá em baixo, apressadamente, se deslocavam como formigas. Estava aqui a pensar na forma como me chupaste e me vim na tua boca — comentei. Ela gargalhou e um pardal bebeu de uma poça de água suja. Um tipo com aspeto retalhado, pediu-nos trocos e eu recusei, enxotando-o. Ela respirou fundo e eu toquei na sua coxa. Lisboa olhou-nos indiferente. A ponte ao longe era silenciosa, mas nervosa, e as miúdas que por ali bebiam cervejas no miradouro não falavam português. Adorei este tempo contigo — disse ela, pendurando-se no meu pescoço. No final do dia deixei-a em Santa Apolónia e soube que não nos voltaríamos a ver. Curiosidade da coisa, meses mais tarde viajei ao Porto. Bebia um fino nos Maus Hábitos quando reconheci aquele rabo. O longo cabelo escorria pelas costas, como uma cascata iluminada pela lua cheia. Ela topou-me a topa-la e reconheceu-me. Bem me parecia que eras tu, que fazes aqui no Porto? Nunca sais de casa... — murmurou entre lábios, enquanto me abraçava. Trabalho — respondi. Estás com bom aspeto — disse ela, dando-me um beijo na face. Tu também — retorqui. Confesso que fiquei excitada pelo seu toque, o cheiro que não esqueci e o decote. Devíamos passar a noite, juntas — sussurrei-lhe ao ouvido. Numa pensão, perdemo-nos uma na outra com a fome de um condenado, sabendo que o tempo escorria tal como areia em ampulheta. Sentada  na estação da Campanhã recordei a madrugada em que fodemos pela última vez. Na próxima semana ela irá a Lisboa e os motéis e jardins secretos irão murmurar os nossos nomes em sincronismo com os arfares e gemidos famintos. Enquanto imaginava essa próxima última vez cheirei os meus dedos ainda com o seu aroma de mulher.</p></div>
]]></description>
      <pubDate>Sun, 26 Apr 2020 16:34:00 +0000</pubDate>
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    <item>
      <title>Inês</title>
      <description><![CDATA[<p><img src="https://umvelhopervertido.com/application/files/8115/7018/6525/Ines.jpg" /></p>

    <div class="content"><p style="margin-left: 20px;">Faz bastante tempo que não preencho o branco das folhas. Histórias que, por malícia ou malandragem, afirmo serem fantasia e, num sorriso mais amarelo, lá me descaiu e o mundo percebe que o rei vai nu.</p><p style="margin-left: 20px;">Quando resolvi dar vida a mais um conto, foder bem as letras e espalhá-las no monitor de fundo branco, sentei-me na sala e comecei esta masturbação.</p><p style="margin-left: 20px;"><br></p><p style="margin-left: 20px;">Conheci a Inês na noite. Estava barulho e eu mudo num silêncio embriagado. Encontrei-me perdido entre gentes numa sala enorme. A musica. Sentia o ruído em meu redor, o tremor do chão, o baixo vibrava no peito e a humidade pingava do teto. Havia alcool no sangue; um pouco de tinto, umas cervejas, gargalhadas de shots, mares de gente desconhecida mas que se tornavam íntimos. Os típicos amigos de bebedeiras, daqueles que durante o dia apenas um aceno de cabeça é suficiente para validar o segredo da noite anterior. Inês apareceu como uma dessas pessoas. </p><p style="margin-left: 20px;">Havia um tipo que estava a descrever como o cão dele era inteligente e detectava merdas enterradas em merda. Um amor de animal. Tinha na carteira uma foto do bicho e tudo. Que coisa triste - pensei e despachei o copo de penalti. Inês olhou-me cúmplice,  percebi que deveria ir ao bar e levá-la comigo.</p><p style="margin-left: 20px;"><br></p><p style="margin-left: 20px;">- Que fazes por aqui neste antro? - perguntei depois de ter pedido dois copos de branco, fresco.</p><p style="margin-left: 20px;">- Provavelmente o mesmo que tu.</p><p style="margin-left: 20px;">- E que faço eu aqui?</p><p style="margin-left: 20px;">- Procuras... – deu um sorvo no copo de vinho.</p><p style="margin-left: 20px;">- Procuro? O quê?</p><p style="margin-left: 20px;">- Diria que não é o quê mas sim quem... – disse com um sorriso torto.</p><p style="margin-left: 20px;">- Bebe comigo... - brindei o seu copo não dando resposta à pergunta que não foi feita. <br>- Que é que fazes para sobreviver?</p><p style="margin-left: 20px;">- Sou escritor.</p><p style="margin-left: 20px;">- Escritor de quê? </p><p style="margin-left: 20px;">- De quecas e de vidas... – fiz uma pausa que durou um piscar de olhos. - Não ficaste surpreendida. A maioria das mulheres fica pasma, muitas das vezes acabo por as levar para a cama. Querem uma experiência literária.</p><p style="margin-left: 20px;">- Não me assustas. Deves ser um bichinho mimoso e fraquinho - sorriu e tocou-me na barba como se eu fosse um chibozinho.</p><p style="margin-left: 20px;">- Tens razão. – Soltei a tipica gargalhada sem piada. - E adoro o teu rabo. Topei assim que te juntaste ao grupo.</p><p style="margin-left: 20px;">- Deixa-te de merdas. Porque te escondes atrás desses comentários? Mostra-me. Quero ver-te.</p><p style="margin-left: 20px;">- Ainda é cedo, falta uma vida por viver.</p><p style="margin-left: 20px;">- Ah! Agora começas com frases feitas. Olha, anda vamos dançar.</p><p style="margin-left: 20px;">- Não danço, mas posso ficar a ver-te - bebi o resto de vinho branco.</p><p style="margin-left: 20px;"><br></p><p style="margin-left: 20px;">Inês diluíu-se na multidão. Um sem fim de corpos agitam-se num ritmo próprio. Cabeças, olhos, mãos esvoaçam como folhas de árvores. </p><p style="margin-left: 20px;">Tem umas pernas de deixar qualquer velho senil. O vestido curto, e a saia, mesmo por baixo do rabo, permitem ver a tímida celulite nas coxas. Um tesão imenso. Não fui o único a topar; um tipo alto e louro, perto do bar, - tem pinta de alemão - baba hipnotizado pelo serpentear das pernas da miúda. Uma mancha de suor, no fundo das costas, contorna as cuecas. A imaginação cresce como uma erecção num adolescente virgem.</p><p style="margin-left: 20px;">Confesso ser um velho fraco, apaixono-me facilmente por estes episódios; a deliciosa  imprevisibilidade da vida. Sou daqueles tipos que ainda alimentam a fantasia com alcool, exageros e sexo.</p><p style="margin-left: 20px;"><br></p><p style="margin-left: 20px;">Ao nascer do dia - quando o sol preguiçoso começa a abrir os olhos - abandonámos aquele local. Inês a meu lado, com umas olheiras cavernosas e o cabelo empastado, diz que facilmente se apaixonaria por mim. Apenas por umas horas, numa pensão rasca na Praça da Figueira. Seria capaz de te devorar - diz num sorriso malvado. </p><p style="margin-left: 20px;">- Mordo-te o coração com fome de leoa; arranho-te a pele num impulso selvagem e, se assim o desejares, poderás foder-me como bem entenderes. </p><p style="margin-left: 20px;">Olhei-a, assim como se olha um quadro abstrato, procurando desvendar uma ideia, uma imagem, uma emoção.</p><p style="margin-left: 20px;">Entre o suor da noite, as roupas com cheiro a tabaco e manchas de vinhos rasca; a saliva espalhada pelas faces, fruto de beijos de boca inteira, são o nosso banho de desejo. Somos pequenos demais para a vontade que sentimos.</p><p style="margin-left: 20px;">Não estamos frescos como alfaces, pelo contrário... Mesmo assim, tocando-lhe na orelha e beijando-a por cima do piercing que brilha, digo-lhe:</p><p style="margin-left: 20px;">- Deixas-me tão duro... – e  penetro-a profundamente, como um respirar.</p><p style="margin-left: 20px;">Mais tarde, após o sono dos justos, tomámos duche e fomos à nossa vida. Paguei uns 40 euros por esse quarto de pensão.</p></div>
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      <pubDate>Fri, 04 Oct 2019 11:52:00 +0000</pubDate>
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      <title>Alexandre (O grande)</title>
      <description><![CDATA[<p><img src="https://umvelhopervertido.com/application/files/2815/3453/6803/jaime_ruela.JPG" /></p>

    <div class="content"><p>Pedi-lhe para contar a melhor história que tivesse vivido, Alexandre sorriu e sentou-se à minha frente.</p><p><span></span>- Quero que me contes todos os detalhes, quero escrever essa história.</p><p><span></span>- Oh filho, tenho tantas, não terás cabeça para as decorar, nem dedos para as escrever  - disse-me, troçando da minha curiosidade.</p><p>	Cruzou a perna e, numa pose sensual e provocadora, prosseguiu:</p><p><br></p><p>	- Tinha dezoito anos. Conheci-o no banco, ele era o gerente, e assim que os nossos olhares se cruzaram senti que não se tratava apenas de créditos e débitos. Havia um desejo naquela mirada. As suas mãos eram grandes e uma aliança havia deixado uma mancha mais clara na pele. O dedo ostentava uma argola branca de divórcio.</p><p>	Preenchi papelada, facultei o meu nome completo, contacto telefónico, e, quando no rodapé de um formulário tive que assinar, a sua mão sobre a minha indicou-me o espaço que deveria ser preenchido. Um arrepio trepou por mim, ericei-me como uma gata desavergonhada.</p><p>- A voz dele era rouca. Uma voz de homem ‘<i>tás a ver? – </i>Comenta, enquanto faz um cigarro fino e comprido.</p><p>Quando a burocracia terminou, e todos os papéis eram uma pilha de restos mortais de árvores, o tesudo do gerente comenta que às sete horas o banco ia fechar e que ficaria deserto. Apenas ele tinha que fazer mais algumas horas, pois estava atrasado num relatório importante. Percebi imediatamente que era um convite. As minhas pernas fraquejaram e o meu pau ficou ligeiramente duro. O meu cúzinho contraiu-se como uma miúda envergonhada.</p><p><i></i></p><p>	Quando passei pelas portas giratórias, tive a certeza que voltaria. Eram cinco da tarde, onde é que iria queimar tempo até às sete? Fiquei num daqueles bancos da Avenida da Liberdade a imaginar... Nesse universo da fantasia fiquei, preso com amarras de desejos. Que vontade de ser a putinha daquele homem. Quero que me faça tudo, sem constrangimentos ou barreiras, tal como o sexo e o desejo devem ser. </p><p><br></p><p>Alexandre parou enquanto apagava o cigarro no cinzeiro, absorto em pensamentos, de certeza, perversos. Tentei imaginar o que seria sentir tesão por um homem. Não consegui, mas a história era fascinante e o entusiasmo com que ele revivia o episódio deixava qualquer ouvinte preso a cada palavra.</p><p><br></p><p>	- Suava das palmas das mãos quando empurrei a porta que ele destrancara. Entrei no banco. Vazio, enorme, incrivelmente limpo e brilhante, como um palácio. As poltronas de cabedal negro aguardavam as próximas transacções. Imaginei-me em cima dele num daqueles tronos, cavalgando como quem procura o lucro e o rendimento máximo.</p><p>Alexandre riu-se com malícia.  </p><p>	- Entrámos no seu gabinete. Uns documentos espalhados por cima da secretária foram habilmente amontoados e enxovalhados numa pasta negra que ficou esquecida num pequeno banco no canto da sala.</p><p>	- <i>Chegaste em boa hora. Afinal consegui terminar o que tinha pendente e tenho agora mais tempo livre</i> - olhou-me pelo topo dos olhos enquanto, debruçado na secretaria, arrumava os últimos post-its. - <i>Queres um café ou algo para beber? </i></p><p><i>	- Não, estou bem</i> – respondi, mordendo o lábio de desejo ao reparar como as calças de fato lhe assentavam nas pernas e realçavam o seu “pacote”. Os contornos do seu corpo corporativo estavam a deixar-me esfomeado e não queria empatar mais tempo com conversas de circunstância. </p><p>	Empurrei-o de encontro à cadeira da secretária e sentei-me ao seu colo. Beijámo-nos com vontade. Lábios e línguas enroladas numa cumplicidade inata. Quando apertou o meu rabo disse-me assim ao ouvido: - <i>Quero que me trates por paizinho</i>. – exemplificou Alexandre murmurando com uma cara velhaca.</p><p>Eu gostei da proposta e alinhei no jogo: </p><p>- <i>Paizinho... Portei-me muito mal hoje. Vais-me castigar paizinho</i>?</p><p>Senti-o crescer e a ficar duro. Quando lhe tirei o pau para fora, reparei como era enorme e cheio de veias. Um caralho bem gostoso que lambi e engoli como se fosse a última ceia. Que pecado de desejo e que vontade. Cuspi naquela pila majestosa e massajei-a bem.</p><p><i>- Ai paizinho, adoro o teu pau. Gostas que te chupe assim? Gostas?</i></p><p>O gerente gemeu subtilmente, tal como um homem geme. Com desejo controlado e vontade libertada a conta gotas. </p><p>- Não conversaram muito... foi logo assim? Comeram-se sem rodeios... - comentei e Alexandre riu em concórdia.</p><p><span></span>- Queres saber o resto?</p><p><span></span>- Claro. Que se passou depois?</p><p>Alexandre continua o relato da sua experiência financeira: </p><p>- Quando o senti latejar fiquei muito excitado, lambi os dedos e molhei o meu olhinho pulsante. Sentei-me no pau duro do gerente que respirou fundo, enquanto eu o enfiava no meu cu apertadinho. Cavalguei-o lentamente e fui cuspindo e humedecendo o seu caralho. Ele começou a ficar doido e, apoderando-se das minhas ancas, acelerou as bombadas.</p><p><i>- Tenho umas ancas muito femininas. Sabias?</i> - comentou Alex e continuou...</p><p>Deitou-me na secretária e fodeu-me ali mesmo, na sombra dos pedidos de empréstimo e das negociatas de compra e venda de acções de outros bancos. - <i>Paizinho fode-me, fode-me</i>, dizia-lhe fazendo com que a excitação chegasse a um nível capaz de deixar maluco qualquer homem são. Adorei cada penetração até que...</p><p>- <i>Quero que me chupes, até me vir, minha putinha</i> - diz-me o gerente, e sem respeito, subjuga-me de joelhos mesmo à sua frente. Ele veio-se após esfregar aquele pau umas tantas vezes e aquele leitinho capitalista cobriu a minha cara. Adoro levar com leitinho na cara, dizem que faz bem à pele. </p><p>No final da tarde, já todos estávamos trocados de vinhos e cervejas, vim-me embora e trouxe no bolso esta história do Alexandre. </p><p>Foi a única vez que ele e o gerente do banco estiveram juntos e, anos depois, a crise rebentou em Portugal. Talvez esta foda tenha tido alguma influência no mundo financeiro. Pelo menos quero acreditar que sim.</p><p><br></p><p><br></p><p><br></p><p>Ilustração por: Jaime Ruela</p></div>
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      <pubDate>Sun, 12 Aug 2018 21:12:00 +0000</pubDate>
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      <title>Funerária</title>
      <description><![CDATA[<p><img src="https://umvelhopervertido.com/application/files/5215/3315/3641/funeraria.jpg" /></p>

    <div class="content"><p>A vida vai passando a cada final de semana na rua de Sant’ana; perto da Ginjinha, há quem venda feijões, sapatos em segunda mão (segundo pé), lâminas de barbear e outros bens que tais. </p><p>	Num restaurante tradicional sentei-me, pedi um bitoque com ovo estrelado. Ainda sentia a ressaca da noite anterior. Havia estado com Ela na Mouraria até perto das 4 da manhã.  Bebemos cerveja, vinho e o resto nem me lembro. Havia um daqueles artistas que tocam teclado, cantam e fazem o pino. As vidas manifestavam-se. As pessoas sorriam, abraçavam-se e dançavam. Também nós o fizemos. A ultima imperial nem a pagámos. Já se queimavam os últimos cartuchos e a banca das <i>jolas</i> já se preparava para fechar.</p><p>- Esta é por conta da casa - disse o rapaz que servia as cervejas a um ritmo alucinante, como se os movimentos fossem uma espécie de coreografia. </p><p>	As luzes apagaram-se e apenas o murmúrio dos últimos resistentes se fazia ouvir pelas estreitas vielas da Mouraria. De caminho para casa Dela sussurei-lhe ao ouvido. </p><p>- Já bebi tanto.. acho que não vai funcionar. </p><p>	Ambos rimos e não fizemos drama. Assim que nos deitámos na cama enroscámo-nos um no outro e tivemos vontade. O desejo apoderou-se de nós, o álcool corria-nos lentamente pelo sangue, como um bêbado pelo Rossio. Demos uma queca memorável. Adormecemos suados.</p><p><br></p><p>	No Domingo, depois da ronhice típica dos dias de ressaca, resolvemos caminhar pela cidade. Descemos a rua de Santa’ana e passando pela funerária lá estava ele. Os olhos semi cerrados, a cabeça pendendo sobre o gordo pescoço. O tédio de esperar pela morte é assim. Dá sono. </p><p>	 O agente funerário, letárgico, gordo e com três queixos. A roupa fica-lhe justa. Apertada. Sentado na sua cadeira de metal, desconfortável e fria. Ele trabalha. Aguarda que a morte aconteça. Rodeado de representações de santos, deuses e algumas velas, o ambiente da agência funerária é incomodativo. Aposto que na gaveta, no lado direito da secretária, tem um catalogo de caixões e adereços fúnebres. Alguns packs a preços económicos e até pequenos envelopes onde poderá ser impressa uma fotografia do falecido. Coisa de luxo. Coisa de morte.</p><p>	Adormecido, não reparou em nós. Não sentiu as almas vivas observando-o como mirones curiosos. Ao longo dos anos deve ter desenvolvido uma sensibilidade extrema a espíritos. Espíritos desprovidos de corpo. Em contrapartida, as pessoas, as vivas e que gritam em festas populares e se embebedam, eram praticamente invisíveis aos seus sensores espirituais. </p><p><br></p><p>	Num riso mórbido continuamos caminhando até ao Martim Moniz, afinal o jogo de futebol estava prestes. Não gosto de futebol mas é um ótimo pretexto para juntar amigos, conhecidos e agradáveis desconhecidos numa mesa comum.  </p><p>	A equipa pela qual gritávamos e sofríamos perdeu. Já passou. Amanhã trabalhamos e a vida continua, normal, sem esoterismos ou extravagâncias.</p><p><br></p><p>	Passámos a noite juntos. Acordámos bastante cedo, como já era Verão o sol brilhava. Beijei-a e num abraço ficámos durante instantes. Após tantas horas dormindo parece que estivemos ausentes da vida. O tempo suficiente para nascer uma pequena flor de saudade. </p><p> 	A força das obrigações, as correntes das necessidades obrigam-nos a interromper o ritmo normal da Alma. Sei que muitos dos vós pensarão que falo de preguiça. Não se trata disso; o conforto do corpo e da alma nada têm a ver com preguiça. Não esta escrito na nossa genética que devemos trabalhar e arrecadar dinheiro para continuar a comer e a pagar caprichos do espirito. Esse sacana está mal habituado. </p><p>	Durante o duche da manhã constatei que o Amor é carnal e poético.  A carne está viva, o sangue percorre e alimenta os músculos e a Pele. Eu sinto, vocês não?</p><p>	Ela entendeu quando lhe disse que sentia uma tusa enorme cada vez que a via nua e a penetrava, duro e com fome. Ela entendeu que cada beijo era com desejo. Cada penetração era um Poema. E ela rima. Ela ri. </p><p><br></p><p>	Naquela agência funerária da Calçada de Sant’ana há um homem gordo e sonolento que aguarda a morte de alguém. Pois é meu amigo, hoje não será a minha. </p></div>
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      <pubDate>Wed, 01 Aug 2018 20:57:00 +0000</pubDate>
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      <title>No elevador</title>
      <description><![CDATA[<p><img src="https://umvelhopervertido.com/application/files/6515/3116/1069/no_elevador.jpg" /></p>

    <div class="content"><p>Há mulheres que nos fazem sentir fracos. Vidro frágil que ao olhar mais penetrante estala. Essas são as minhas preferidas. Não há nada como sentir-me pequeno e fraco, rodeado por rochedos confiantes de beleza inigualável.</p><p><br></p><p>	No final de tarde, presos no elevador, ela contou-me que durante a escola básica era a segunda menina mais bonita da classe. Sorri e acreditei que, esta mulher no apogeu dos seus vintes, havia sido a beleza da escola. Estava calor e o espaço começava a encolher. O ar metalizado que se respirava não ajudava. Comentei que era primeira vez que me via nesta situação.</p><p>- Preso num elevador? - disse-me franzindo o sobrolho.</p><p><span></span>- Não... conhecer a segunda menina mais bonita da classe.</p><p>	Ambos rimos. Nestas situações convém ganhar alguma proximidade com quem partilhamos a aflição. Os botões da máquina piscavam loucos, um ruído branco e ocasionais sílabas faziam-se ouvi no auscultador vermelho -, a única salvação nos momentos de clausura. O único portal de comunicação para além do cárcere. </p><p>- Não tenho rede no telemóvel. Talvez devêssemos gritar. Quem sabe alguém nos ouve. - começava a estar irrequieta.</p><p><span></span>- Gritar o quê?</p><p><span></span>- Não sei. Por ajuda. ACUDAM. - gritou.</p><p><span></span>- Não sei se consigo. </p><p><span></span>- AJUDA-  gritou novamente.</p><p><span></span>- Estás a fazer um bom trabalho. Talvez fique como ouvinte.</p><p>	Passaram várias horas. Que merda. Ela já se sentara no canto do elevador. Pernas abertas. Sensuais. Suadas. Já eu, com lábios gretados de sede e um cheiro a suor que não podia. Pobre miúda... tinha logo que levar comigo.</p><p style="margin-left: 20px;" rel="margin-left: 20px;">- Que fazes da vida? - perguntei ao mesmo tempo que limpava o suor da testa.</p><p style="margin-left: 20px;"><span></span>- Estou a terminar estudos; um mestrado em Relações internacionais. </p><p>	Que conveniente. Uma relação entre mundos diferentes. A segunda miúda mais bonita da escola básica e o gajo que nunca foi o segundo em nada (nem o primeiro) e quase com o dobro da sua idade.</p><p>- Senta-te aqui a meu lado. Isto é desesperante. - Pediu-me, impaciente.</p><p>	Encostou a sua cabeça no meu ombro.</p><p>- Não sei o teu nome. - murmurou cansada. Enfadada.</p><p><span></span>- É irrelevante, é um nome comum e que nunca seria recordado. Qual é o teu?</p><p><span></span>- Tens razão. Também não quero saber.</p><p>	Apesar do suor que me alagava envolvi-a nos meus abraços, Ela pareceu não se importar. Eu também não. Nesse momento lembrei-me daquele filme <i>Lost in translation</i>. Clichê! Senti o seu corpo a complementar o meu torço. Respirei fundo o cheiro do seu cabelo. Champô comum mas quente e envolvente.</p><p>	Há uns tempos, cerca de uma década e meia, um tipo disse-me que não havia nada como carne nova. Pareceu-me bastante misógino; um comentário de talhante. Entendi o que ele queria dizer quando como que por consequência do cansaço peguei a sua mão e suavemente senti os seus magros braços. A carne suave e um pouco esponjosa. Nervosa.</p><p>	Toquei as suas pernas e ela enroscou-se mais. Comecei a ficar duro. Não muito, apenas um sinal de vida. Umas palpitações.</p><p>	Poderia ter sido a clássica foda no elevador, observados apenas pelos espelhos que nos circundam - e potencial câmara de segurança. Nada disso... Toquei na sua face e partilhamos um leve beijo nos lábios. Nesse exacto momento as portas abriram-se, e dois homens fardados aguardavam-nos, como negociadores de reféns. </p><p><br></p><p>	No bar daquele hotel bebemos um copo. Eu fui para um vinho tinto. Ela preferiu um <i>cocktail</i> exótico com sumos e sombrinhas de papel. Acordamos não trocar nome nem contactos.  Prometi escrever a nossa história.</p></div>
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      <pubDate>Tue, 03 Jul 2018 18:03:00 +0000</pubDate>
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      <title>A tusa</title>
      <description><![CDATA[<p><img src="https://umvelhopervertido.com/application/files/8715/2727/6561/IMG_5715_1.JPG" /></p>

    <div class="content"><p>Resolvi ir até à praia. É bom viver num país perto do Oceano. Imagino toda aquela malta que, por infelicidade geográfica - e genética - resolveu nascer num daqueles países emboscados por nações vizinhas -, pedaços de terra rodeados de terra por todos os lados - e demoram dias de viagem até poderem vislumbrar o Mar. Na praia onde estendi a toalha um grupo de cachopos brincava. Deviam ter entre os 5 e os 7 anos. Deliravam com a areia. Falavam, corriam e bracejavam. Comentavam como a miúda que dormitava ao sol, numa toalha colorida, era “gostosa”. Corriam em sua direcção, riam envergonhada e atrevidamente, para fugirem a correr, como se tivessem cometido algum delito menor. A miúda ignorava. Eles teimavam. Havia um pequenito loiro que, talvez por ser demasiado novo, vivia toda esta história de uma forma muito dele. Viajava por um universo à parte. Provocava chuvas de areia e ria. Com uma pequena concha fazia uma festa tremenda. A inocência faz de nós seres alheios à malícia e sacanagem que nos envolve. </p><p><br></p><p>Pensei na minha infância. Tentei recordar o momento e o evento que despertou em mim o apetite pelas meninas. Quando é que passei a olhar para elas com olhos enfeitiçados? Com desejos de fome sem as querer morder? Quando terá surgido essa vontade de as ter? Quando terei sentido t<i>usa</i> pela primeira vez? Não consegui chegar a esse momento. Que pena...</p><p><br></p><p>Lembro-me de um episódio muito marcante da minha infância. O dia em que encontrei um jornal erótico abandonado nas escadas de uma Igreja. Ali estava ele. Apenas consegui ver parte da página da capa. Não tive dúvidas. Era a fotografia de um par de mamas muito avantajado. Uma mulher a sério. Achei aquilo curioso. Não consigo precisar se senti <em>tusa</em>, a verdade é que as minhas pupilas dilataram - tal como um gato prestes a atacar - e o coração bateu um pouco mais rápido. Senti um misto de excitação e receio; peguei no jornal e guardei-o por baixo da camisa que vestia. Confirmei que ninguém havia sido testemunha. Cheguei a casa e escondi-o numa caixa de jogo de tabuleiro. Ninguém iria descobrir.</p><p><br></p><p>Os dias e semanas passaram. Volta e meia lá ia eu espreitar. Gostava de ver as fotografias das mulheres nuas. Peludas e com mamas enormes. Rabos redondos, provocando-me. </p><p>Numa das tardes em que estava sozinho em casa, resolvi ler umas das paginas do jornal. Era uma pequena história erótica intitulada “Leite com Farturas”. Irei tentar contar-vos da melhor forma que me recordo:</p><p><br></p><p><em>Solange morava há pouco tempo no prédio. Vivia sozinha no primeiro esquerdo. Os vizinhos, tal como em todas as grandes cidades, ignoraram a sua presença. Duas semanas e não tinha travado conhecimento com ninguém. Naquela tarde, depois de voltar do trabalho e ter tomado um banho, reparou que nada tinha para preparar uma refeição. A preguiça de voltar a vestir a roupa era gigante. A sornice era mais que muita. Sabia bem o calor no corpo após o banho quente e relaxante. Resolveu vestir algo simples e tocar na porta do vizinho da frente. </em></p><p><em>- Olá boa noite, desculpe incomodar.</em></p><p><em><span></span>- Não incomoda. Diga, diga. - respondeu sorrindo o homem que, tal como ela, vivia sozinho. Apenas ostentava uma toalha à cintura e o corpo ainda molhado de um duche.</em></p><p><em><span></span>- Já é tarde e reparei que não tenho nada para jantar. Tem uns ovos que me dispense?</em></p><p><em><span></span>- Entre... - convidou ele.</em></p><p><em><span></span>- Não quero incomodar - e foi entrando no apartamento do vizinho. </em></p><p><em><span></span>- Também não tenho grande coisa, não fiz compras ainda. Mas tenho leite com farturas.</em></p><p><em><span></span>- Oh! Gosto bastante de leite - sorriu atrevida.</em></p><p><em>O vizinho tocou-lhe levemente no ombro. </em></p><p><em>- Então perfeito, eu cozinho para nós. Deixe-me só ir vestir algo. Fique à vontade. </em></p><p><em>Solange sentou-se no sofá exibindo a coxa esquerda. Um acto de provocação consciente. A fome era tanta... O vizinho voltou vestindo apenas umas cuecas justas ao corpo. Vendo-a tão apetitosa, o seu mangalho cresceu por baixo do fino tecido. Ela sorriu.</em></p><p><em>Leoa disfarçada de vizinha, Solange foi gatinhando em direcção ao bacamarte que crescia sem vergonha. Quando chegou pertinho po-lo a descoberto. Levantou-se  e enquanto apertava e acariciava o <i>bicho</i>, beijou o vizinho. As línguas entrelaçaram-se. Que tesão, murmurou ele e Solange concordou. </em></p><p><em>Chupando e saboreando o mangalho, a saliva escorria pelo queixo e ela gemia de prazer. Começou a sentir-se húmida e o seu grelo abriu como uma ameijoa. Ele também a lambeu, demoradamente, antes de a penetrar com o seu membro duro e vascular. </em></p><p><em>Cavalgou sobre o falo faminto. Veio-se intensamente, sentido a onda de prazer percorrer o corpo. Ele deu-lhe uma palmada no rabo. Solange gostou. Nos instantes que se seguiram ronronou como uma gata com o cio. Ele pulsava à medida que ela chupava e pedia pelo leitinho quente. A explosão deu-se dentro da sua boca. Sem se engasgar engoliu sem hesitações, até à ultima gota. Foi uma fartura de leite.</em></p></div>
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      <pubDate>Mon, 14 May 2018 20:28:00 +0000</pubDate>
      <link>https://umvelhopervertido.com/pt/perversoes/tusa</link>
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      <title>Silêncio</title>
      <description><![CDATA[<p><img src="https://umvelhopervertido.com/application/files/1115/2477/7722/silencio.JPG" /></p>

    <div class="content"><p>O aroma que se sentia no quarto recordava-o da casa onde crescera. Não era agradável. Era o cheiro de ensopado de borrego, carregado de cravinho, tal como ditava a receita da avó. A família reunia-se em volta da mesa de madeira e todos falavam ao mesmo tempo.  Ele escrevia numa folha branca, todo aquele tempo que separa a memória do presente. Sem qualquer ambição de escritor profissional, definhava na ânsia de fazer o tempo parar. Ao menos que abrande, pensava... Quando o conheci já era velho. As memórias estavam ressequidas e amareladas como paginas de um antigo livro raramente lido. Trocámos palavras e ideias sobre o estado actual do mundo. Que miséria esta, comentava com o seu semblante de velho do Restelo. Viver pensando no que poderia ter sido, no que poderá ser, no que inevitavelmente, será... Tinha agora um computador, daqueles modernos com maçãs. Dedilhava as teclas como quem toca arpa. Com a paixão de quem acaricia e sente uma mulher. Disse-me que lamentava algumas coisa que não havia feito durante a vida. Não mencionou nada do que alcançara. </p><p><br></p><p>Saber que o tempo está prestes a acabar pode ser deveras angustiante, mas pior que isso é saber que ele não volta e os erros que foram cometidos não poderão ser apagados, modificados... Remorsos. Não existe coisa pior do que viver carregado deles. Sentem-se nos ossos. Os médicos dizem que existem formas de aliviar a dor. Olha que <i>sa foda</i>, dizia-me ele em momentos de revolta. Conforme ia partilhando todas estas lamentações, eu recordei o dia em que o meu pai disse que tinha cancro. Restava apenas preparar a cama para que ele pudesse repousar. Tinha dezassete anos quando isso aconteceu e, o livro verde, a enciclopédia médica que havia ditado a sentença, escondi numa caixa que ainda hoje não sei onde está. É desta forma que se tentam apagar pesadelos. Não resultou. </p><p><br></p><p>Naquele tempo as pessoas morriam da doença. Hoje ainda assim acontece, no entanto, as curas para mazelas da vida - como impotência e coisas do género - evoluem a passos de gigante. Dou por mim esperando que a terra prometida seja visível no horizonte. Mudei de casa e, quando me empoleiro na janela da cozinha, consigo ver o oceano. As nuvens escurecem, o sol brilha, o tempo passa mas esse mundo maravilhoso teima em não se mostrar. Ela diz que eu sou um pessimista e insatisfeito com tudo o que me rodeia. Pois olha! O que tenho não me chega. Quero mais do que  todos os sonhos do mundo. Desejo muito mais do que a utopia da felicidade. </p><p><br></p><p>Um velho será Sempre velho. Desde o nascimento até à inevitável morte e eu aguardo, no silêncio.</p></div>
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      <pubDate>Thu, 26 Apr 2018 22:20:00 +0000</pubDate>
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      <title>Entre sonhos</title>
      <description><![CDATA[<p><img src="https://umvelhopervertido.com/application/files/1515/2372/6711/FullSizeRender.jpg" /></p>

    <div class="content"><p>A roupa da cama desalinhada. Os livros abertos, com paginas dobradas, perdidos no sofá da sala. Jaime dorme; suave e confortável como claras de ovos em castelo. Nesse grande desfiladeiro da fantasia - o sonho - as estrelas parecem traços de luz que indicam o caminho, a velocidade é vertiginosa e o sentimento de queda é constante. Jaime move-se, troca de posição na cama procurando o conforto típico de quem aguarda nascer. </p><p><br></p><p>A queda transforma-se num deserto onde o ar é morno e os pés descalços enterram-se na areia quente. Sente-se minúsculo na vastidão. Não há vida à vista, nem um insecto ou um mero cacto. Pequenos trilhos na areia - seria uma serpente? - indicam um caminho que Jaime decide percorrer. A esperança de encontrar o que não procura é um poderoso afrodisíaco. Não sente sede, fome ou cansaço, existe apenas um tempo que não passa, uma perenidade sufocante.  Um brilho de luz muito brilhante ofusca o seu olhar.  Subitamente encontra-se num palácio, muito semelhante à casa do Alentejo ali perto das Portas de Santo Antão. A fonte da sala principal esguicha água e o som é reconfortante. Jaime volta-se mais uma vez na cama e instintivamente coça a cara. </p><p><br></p><p>No primeiro andar, seguindo o som de um piano lacrimoso harmoniosamente tocado, encontra uma Mulher. Observa-a antes de humedecer os lábios. Esta Mulher não tem cara. Um borrão num quadro a pastel. Como pequenas pétalas de cerejeira que vão nevando, as suas feições revelam Silvia. Está diferente. O cabelo longo e preto e um leve traço negro contornando os olhos. Um acorde pesado e grave quase o acorda. O som e a surpresa parecem querer puxa-lo para fora do Imaginário. Tal não acontece pois rapidamente Silvia segura a sua mão. Tem dedos lindos e longos. Jaime sorri e volta-se na cama. O Gato derruba uma garrafa que desafiava as leis da gravidade na mesa da sala. O som estridente apenas provocou alteração de cenário no sonho de Jaime, agora colado a Silvia numa tenda de campismo. É noite e ouvem-se mochos ou corujas, nenhum deles sabe discernir qual é qual. Beijavam-se intensamente no calor do ninho. Uma pequena lanterna cria sombras. Os seios de Silvia desenhados a negro na lona, perfeitamente delineados. Os mamilo sobressaiam e Jaime beija-os. Silvia respira fundo e entrega todo o seu peito a Jaime. A barba de alguns dias arranham ligeiramente mas ela gosta. </p><p><br></p><p>Fora do sonho, onde o seu corpo adormecido é envolvido pela realidade, uma erecção cresce e a fronteira que existe entre o sonhado e o vivido perde os contornos. </p><p><br></p><p>Estremecem quando ouvem passos sobre a folhagem seca da floresta, os corações até então sincopados, aceleram a ritmos diferentes. A sintonia perdida transporta Jaime para um cenário familiar. A sala, o sofá... Silvia deitada e apenas com umas cuecas róseas, joga as pernas por cima das dele num jogo de provocação e malícia apaixonada. Sobre ela Jaime beija-a com uma fome imensa. </p><p>Na cama, os lençóis enrolam-no tal como as ligaduras de uma múmia e a erecção está mais dura que nunca. </p><p>Silvia, húmida e arfante. É excitante sentir as cuecas de uma Mulher molhadas pelo Desejo . A vulva que se abre como uma ostra. Jaime lambe-a fervorosamente na busca infindável da preciosa pérola. Que imagem mais oceânica esta! Lambuzado pelo suco de Silvia, baba-se na cama, a almofada molhada não lhe é estranha neste contexto. </p><p>- Tão bom... - suspira ela.</p><p><br></p><p>Tão rápido e inesperado como qualquer sonho, Jaime encontra-se com uma mulher em cima de si, cavalgando e suando, como se horas tivessem passado e todos os sucos fossem sugados pela sua cona quente e molhada. No quarto níveo onde se encontram é impossível perceber onde termina o chão e se iniciam as paredes e o tecto. Um vácuo branco. Apenas uma cama redonda. Jaime penetra-a com uma vontade de conquista. Este desejo de carne é extremamente intenso e leva-o a pulsar o seu pénis erecto quando se mexe na cama do seu quarto. O gato lambe uma pata observando-o sentado na secretária. </p><p>Jaime agarra com mão cheia as ancas e o rabo da mulher, as penetrações são cada vez mais rápidas e profundas. Ela vem-se no seu caralho e a sua cara transfigura-se. É Silvia novamente. Geme e contorce-se procurando sentir cada pedaço de Jaime. A excitação  leva-o a respirar profundamente e o gato volta a cabeça procurando sentido no ruído. O seu pénis latejante e o ruído dos carros lá fora acordam-no no preciso momento que estava prestes a vir-se. Durante uma pequena fracção de segundo, quando o seus espirito volta à realidade, sente-se perdido. Tempo e espaço alteram tão rapidamente que não consegue perceber o que acabou de acontecer. Olha para o lado da cama e percebe que está sozinho. Reconhece que o sonho terminou, apercebe-se que a realidade o puxou novamente para a inevitável certeza das regras do tempo e espaço. Ela  já deve ter ido trabalhar, pensou para consigo.</p></div>
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      <pubDate>Sat, 07 Apr 2018 18:24:00 +0000</pubDate>
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      <title>O Homem espacial</title>
      <description><![CDATA[<p><img src="https://umvelhopervertido.com/application/files/2815/2189/2176/2012-03-06_11.35.13.jpg" /></p>

    <div class="content"><p>Para ele o universo cabia numa casca de noz. Condensado em lagrimas de estrelas e cometas, assim o tempo fluía. Tempo... um luxo do qual ele não poderia usufruir pois a sentença - mortal - havia chegado quando ainda era um jovem cheio de força na verga. Anos,  horas e minutos estavam contados. Não em pequenos grãos de areia mas sim em estrelas cadentes que marcavam o seu destino, um breve instante no cosmos intemporal. O juiz - aquele que dita a Vida - havia sido peremptório, não havia matemática capaz de o salvar.</p><p><br></p><p>Na tarde de outono, quando a fraqueza conquistou a perna esquerda, conheceu-a e apaixonou-se. Os tremeliques inerentes à paixão foram confundidos com a sua enfermidade. O amor não passa de uma doença degenerativa - reconheceu. Os médicos, especialistas e até cientistas de coisas estranhas, não conseguiam explicar o que se passava. Amor é difícil de equacionar, diziam com um olhar cabisbaixo. Um semblante derrotado face aos poderes cósmicos do acontecimento. Não desistiu. Nas raras ocasiões que se levantou da cadeira foi apenas para provar que o Amor existia.</p><p><br></p><p>Sozinho na sala de estudo, a grande ardósia negra era a tela. Nela já havia transcrito várias imagens que, até então, apenas existiam na Imaginação. Nesse local, onde as fantasias de criança se misturam com a pesada realidade da existência finita, esboçou sorrisos em equações, gargalhadas em incógnitas integradas entre o zero e o infinito. Naquele dia de outono, consciencializou-se Dela e as formulas matemáticas deambularam em frente aos seus olhos.  Apesar da segunda lei da termodinâmica postular que a entropia tende a aumentar - assim ele ensinava aos seus alunos -, os números, fracções e variáveis, organizaram-se segundo uma ordem lógica. O giz era branco e os traços precisos. Inicialmente duvidou da certeza que testemunhava. Não pode ser! -, pensou. Apagou a matemática que descrevia o Inexplicável. Involuntariamente o braço esquerdo, o que ainda funcionava apesar de fraco, re-escreveu a miragem que contemplava. Era verdade! Seria impossível chegar ao mesmo resultado a não ser que estivesse a perder faculdades e deambulasse entre erros - coisa impensável considerando o seu génio - ou fosse Ela uma feiticeira do cosmos, brincando com as mais preciosas regras matemáticas.</p><p><br></p><p>Fez o que qualquer homem faria na sua posição. Aceitou o desfecho e resolveu assumir as consequências. Estava mais que provado que o Amor Eterno era inevitável e por isso teria que o viver na plenitude. Flores, poemas e canções. Mãos dadas e segredos partilhados. Vidas envelhecendo juntas como passas de uva comidas a cada badalada de um novo ano.</p><p>Tal como as formulas agora esbatidas no grande quadro da sala de estudo haviam previsto, o seu corpo envelheceu. É duro ter consciência. É doloroso carregar o peso do que passa e do que foi vivido. Um dos axiomas do teorema que havia criado enunciava que o passado permaneceria no seu sitio. Lá atrás, onde foi vivido. Existia um pequeno factor de correcção que deformava este axioma; chamou-lhe Saudade (é tão frágil e bela). Quando as iterações conduziram o resultado ao limite, levantou-se da cadeira onde havia passado todos os anos contemplando-a e estudando o Amor Eterno. Não olhou para trás.  A estrela mais brilhante do cosmos sorriu-lhe e abriu o seu coração. A luz envolveu-o como uma aura.  Assim permaneceu, existindo na eternidade provada pela Equação do Amor.</p></div>
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      <pubDate>Sun, 18 Mar 2018 11:44:00 +0000</pubDate>
      <link>https://umvelhopervertido.com/pt/perversoes/o-homerm-espacial</link>
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      <title>Na eventualidade de perder-Me</title>
      <description><![CDATA[<p><img src="https://umvelhopervertido.com/application/files/3115/1812/0958/Perderme.jpg" /></p>

    <div class="content"><p>É ingrato pensar que na eventualidade de perder-Me, dificilmente terei a consciência de tal desgraça. Essa possibilidade assusta-me, ao ponto de duvidar da vida. Não da vida como existência, mas sim da Vida, aquela que tem luzes brilhantes e pequenas faíscas nos olhos.  Na eventualidade de perder-Me, espalharei pedaços de pão pelo caminho,  na esperança de que a Fome seja fraca e não o consuma. Triste desejo, no mundo onde ela arreganha os dentes a gotas de sangue e pequenos restos de pele morta. </p><p><br></p><p><span></span>Deixarei um testamento, lacrado, escondido num sobreiro de cortiça grossa e cansada. Poderei eventualmente criar uma canção na casa de um amigo músico. Obrigatoriamente terá de ser um artista de confiança, que não tente lucrar com o triste desaparecimento deste seu confrade. Nessa música, irão brotar das notas, todas as pistas necessárias para que possa encontrar-Me. Espero perder-Me num final de semana, uma sexta feira, para, tranquilamente, reaparecer a tempo de voltar ao trabalho na Segunda. Quem tem contas a pagar e caprichos por viver, não pode dar-se ao luxo de perder-Se, assim, sem mais nem menos...  Deve, no mínimo, preencher um requerimento, telefonar para seu local de trabalho com 72 horas de antecedência e, finalmente após encontrar-se, apresentar um documento autenticado por um médico - ou um sacerdote reconhecido - comprovando a Perda. </p><p><br></p><p><span></span>Na eventualidade de perder-Me, quem me ama ficará preocupado e, num desespero de vitima, convocará forças militares de salvamento e as enviará à minha procura. É bom ser amado. É bom sentir que a chuva que nos toca, nesses momentos de perda, se transformará nas lagrimas de alegria desses que nos amam e procuram - e eventualmente encontram. </p><p><br></p><p><span></span>Na eventualidade de perder-Me, confiarei na bússola que sempre me acompanha no coração. Este tic tac, por vezes irregular, devido a vicissitudes da vida e do Amor, é a ultima ferramenta que deverei utilizar para encontrar-Me. O uso do coração é perigoso, é apaixonante!</p><p>Se perder-Me junto ao oceano e pela beira mar deambular esquecido de Mim, certamente aquela garrafa de vidro - de um qualquer vinho alentejano - com uma carta bem dactilografada e com pistas preciosíssimas sobre como Recordar, será - por obra do  Destino - depositada junto a meus pés. Que se fodam as meditações e o viver o presente, quem serei eu se não me Encontrar? Quem serei eu sem o passado, sem ti, sem eles e elas? Sem as bebedeiras e as tristezas, o sexo e o amor? Serei o quê sem esse sorriso que esboças sempre que me vês. Que posso ser eu se não me reconhecer num espelho - e são tantos os dias em que isso é a Verdade. </p></div>
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      <pubDate>Thu, 08 Feb 2018 20:15:00 +0000</pubDate>
      <link>https://umvelhopervertido.com/pt/perversoes/na-eventualidade-de-perder-me</link>
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      <title>Outono</title>
      <description><![CDATA[<p><img src="https://umvelhopervertido.com/application/files/4315/1765/7703/outono.jpg" /></p>

    <div class="content"><p>Quando o avião partiu, todos os que observávamos a lenta marcha dos nossos amores, até à ave de metal, voltámos costas com um sentimento de desolação. Inevitavelmente assim aconteceu. Mesmo antes de ela partir já os pássaros nómadas haviam abandonado os ninhos; as árvores despiram-se das velhas folhas castanhas e o rio secou. As águias, haviam arrancado o bico e as unhas e aguardavam, em sofrimento, o rejuvenescimento. </p><p>No quarto, o cheiro a sexo fazia-se sentir, sendo agora uma tortura olfactiva da qual não conseguia fugir. Olhei o canto da casa de banho e ali estavam, umas cuecas, pretas e finas com o cheiro dela. Na sala, um elástico para o cabelo. Na cozinha, uma pequena côdea de uma torrada, que ela havia mordiscado, momentos antes de partirmos para o aeroporto. A marca dos dentes era bastante óbvia e recordei o seu sorriso. Pequenas relíquias que, acidentalmente, foram ficando germinadas pela casa, no entanto, as flores agora não crescem. O Outono tem esta particularidade, é uma estação de morte e latência, embora saibamos que é gordo e cheio de esperança. As vidas estão ali, prontas a rebentar sob a forma de botões de rosa. Ramos que timidamente surgem nas árvores. </p><p><br></p><p>“O esperma foi calorosamente recebido pelo óvulo - e ela gemeu”, li nas páginas de um qualquer livro que por ali teimava em manter-se aberto.</p><p><br></p><p><span></span>Dou por mim a pensar em todas as pequeninas histórias que vivemos juntos. Ela a quilómetros de altura rumo ao novo mundo, eu aqui, no Outono. Simultaneamente as castanhas assadas estalam e o aroma é reconfortante; recordei os abraços por baixo das mantas e o seu sabor de mulher. As unhas quando deslizam sob uma pele arrepiada fazem cócegas. Ela ria. Conversávamos sobre quedas, quecas e nascimentos. Podíamos  até discutir os malefícios do fumo, da carne, do álcool, o sedentarismo e a falta de humor. Perto de uma lareira ardente, nas noites de chuva, liamos poemas em voz alta, como se os declamássemos para uma plateia de <i>intelectualoides</i> sabedores da semântica. </p><p><br></p><p><span></span>No fim de cada noite ali estava ela, pernas abertas como as portas do Paraíso. Os pelos e os lábios carnudos, brilhantes, húmidos de excitação, convidavam à penetração. Uma mulher que desta forma se entrega a um homem, só pode deseja-lo imensamente. Um desejo de fêmea, sem preconceito religioso ou castração social. A pureza é assim. Explicita e sem segundos sentidos. A pele das coxas arrepia e as virilhas, esses pequenos vales de conforto, são suaves e sedosos. Como eu gosto de a beijar ao longo das curvas do seu corpo, até que, delicadamente, sinto os seus pintelhos nos lábios. Gosto dela assim. Pura e natural. Cada noite que passava, mais a conhecia e mais ela me desejava. Por vezes quero convencer-me de que não sou um egocêntrico <i>Narcisico</i>. Oh, mas ela sabe! Sente perfeitamente como eu desejo que ela me deseje, e que nela deixe-me brotar, forte e seguro de mim, tal como os rebentos da nespereira. O Fruto das nossas fodas, espalhado pelos lençóis, pelas toalhas de banho, pelos lábios ou pelos seus seios, eram a prova física do nosso êxtase. </p><p><br></p><p><span></span>Este ano será diferente. Algures, a sua flor desabrochará sem que eu possa colher o precioso nectar de Mulher. Outro homem, quem sabe, será afortunado de a conquistar - difícil tarefa, disso tenho a certeza! Estas palavras não são uma história, muito menos uma carta ou um desabafo, são apenas um suspiro. Uma brisa de desejo, uma folha que cai durante o Outono deixando livre o berço para um novo Orgasmo.</p><p><br></p></div>
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      <pubDate>Thu, 01 Feb 2018 11:34:00 +0000</pubDate>
      <link>https://umvelhopervertido.com/pt/perversoes/outono</link>
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